quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Blockbuster made in Portugal

Primeiro ponto: não sou advogado do diabo nem ponho as mãos no lume por ninguém. No entanto, desde há muito aprendi a desconfiar do que é dito sobre determinadas figuras públicas que, pelo amor e pelo ódio que suscitam, constituem um alvo preferencial de certa imprensa tendenciosa e sensacionalista. Não me refiro, neste caso, a artistas famosos ou estrelas de cinema, mas sim a um dirigente de um clube de futebol que não pode dar um flato como qualquer outro mortal sem que alguém o venha acusar de querer matar meio mundo por intoxicação com gás Sarin.
No início desta semana, fomos confrontados com as notícias sobre coisas gravíssimas que se teriam passado à porta do tribunal de S. João Novo. Segundo rezam as crónicas, o motorista de Pinto da Costa teria saído do estacionamento a grande velocidade e atropelado um jornalista do JN que, atingido numa perna, caiu e bateu com a cabeça num veículo estacionado, rolando depois pela rua de paralelo. As manifestações de revolta não se fizeram esperar e os jornais não se fizeram rogados em utilizar as mais extraordinárias expressões para relatar o caso, havendo mesmo quem substituísse a palavra “atropelamento” por “abalroamento”, dando assim mais ênfase e dramatismo ao quadro. De facto, ao ler os artigos publicados em alguns jornais, uma pessoa não deixará de imaginar uma cena de um filme à boa moda de Hollywood, em que um veículo dirigido por um terrorista tresloucado se lança sobre a multidão em pânico e atinge violentamente um inocente cidadão que dá duas voltas no ar antes de cair desamparado no chão, mergulhado numa poça de sangue. A tragédia, o horror, o drama… o disparate!
É claro que qualquer pessoa de bom-senso se apercebeu imediatamente que algo não batia certo nesta história e não foi preciso esperar muito tempo para perceber que as coisas não aconteceram da forma rocambolesca que a imprensa procurou transmitir. O problema não está tanto nas coisas que foram ditas (ainda que se tenham dito algumas falsidades, ou, como agora se diz para não ferir susceptibilidades, inverdades), mas na forma como foram ditas. Houve claramente a intenção de manipular a opinião pública, levando as pessoas a acreditar que um acidente meramente casual poderia ser, afinal, um acto criminoso premeditado.
É verdade que o carro passou muito perto das pessoas, mas a rua é tão estreita que é impossível não o fazer; é verdade que existiu um toque do espelho retrovisor no jornalista, mas foi este que se lançou para junto do carro na tentativa de fotografar o presidente portista à saída do tribunal; é verdade que o jornalista ficou ferido, mas sem a gravidade que quiseram divulgar; é verdade que o veículo não parou, mas seguia devagar e a travar; é verdade que o agente da polícia mandou parar, mas fê-lo batendo com a mão no tejadilho, sem que os ocupantes do veículo se pudessem aperceber da intencionalidade desse acto.
Infelizmente, ainda existe em Portugal muita gente pobre de espírito que não consegue discernir um gato de uma lebre e que come qualquer porcaria que lhes ponham no prato. Obviamente, são esses que alimentam este tipo de imprensa e que justificam que se continue a destruir florestas para obter o papel em que se escreve esta verborreia. Refira-se, a título de exemplo, o comentário de um cidadão anónimo, publicado na versão on-line do jornal O Público, que manifestava a sua indignação e revolta pelo facto do agente policial presente no local não ter usado a sua arma para deter o veículo disparando para os pneus. Numa coisa este indivíduo tem razão: qualquer filme de acção que se preze tem que ter uma boa cena de tiroteio, sob pena de desapontar os espectadores e tornar-se num fracasso de bilheteira. O problema que este cidadão dá mostras de não compreender é que os valores que devem reger uma sociedade livre e democrática estão muito distantes desse mundo de ficção em que a comunicação social fez mergulhar a sua consciência da realidade.

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