domingo, 20 de setembro de 2009

Vaca de uns, galo de outros

Muitas vezes, os golos mais bonitos, os que levantam multidões nos estádios e ficam na memória dos adeptos, são aqueles que os seus autores não tinham intenção de marcar. Alan pode passar os próximos dez anos da sua vida a tentar repetir o golo que marcou ontem ao FC Porto e, provavelmente, nunca o conseguirá. Aquilo que não deveria passar de mais um centro para a área, previsível e inconsequente como foram todos os outros que fez durante a partida, transformou-se, graças à intervenção do acaso, num belo presente para o jogador aniversariante e para os adeptos do Braga. Se se tratasse de bilhar às três tabelas, estaríamos perante uma jogada de campeão, mas, tratando-se de futebol, não passou daquilo que, no calão popular, se designa… uma grande vaca. Uma vaca que, graças ao histerismo que provocou na classe jornalística alfacinha, se arrisca a ser eleito como o golo da semana ou até mesmo da época. Nada a que não estejamos habituados, vindo de quem vem. Resta agora ver se a vaca do Braga vai continuar a dar leite ou se se esgotou nos jogos com o FC Porto e o Sporting.

Lei e seus derivados

Não, não se trata de um erro de escrita nem me estou a referir ao leite, à manteiga e ao iogurte. Refiro-me exactamente à lei do futebol e às derivações da sua interpretação e aplicação em função dos critérios dos árbitros. Talvez seja um exagero falar em perseguição, da mesma forma que é uma ingenuidade continuar a falar-se em coincidência, mas a verdade é que, chamem-lhe como quiserem, os factos falam por si: há jogadores que são alvo de critérios de arbitragem especiais.
Ontem, na partida frente ao Braga, Pedro Proença conseguiu, mais uma vez, reinventar as leis do futebol. Numa jogada perfeitamente banal ocorrida a meio-campo em que Hulk se limitou a saltar para evitar o contacto com um adversário que lhe fez uma entrada de carrinho, o árbitro interrompeu o jogo para mostrar o cartão amarelo ao brasileiro por… simulação. Já sabíamos de antemão que Hulk não tem o direito de reclamar pelas sucessivas entradas que sofre dos seus adversários. O que ainda desconhecíamos era que estava proibido de se desviar delas.
Se o lance tivesse acontecido dentro da área do Braga e o avançado portista manifestasse a intenção de enganar o árbitro simulando penalty, a acção disciplinar seria irrepreensível, mas, nas circunstâncias em que a jogada se deu, o critério disciplinar de Proença é, no mínimo, forçado. Fosse esta severidade aplicada em todos os jogos e a todos os jogadores de igual forma e raras seriam as partidas que acabariam sem expulsões. Felizmente para o futebol, tal disparate não acontece porque estes excessos de zelo têm destinatários concretos e bem definidos, não constituindo prática geral.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sim, é sempre preciso esperar mais de Hulk, mas...

Frente ao Chelsea, Hulk fez um jogo muito apagado e, tal como já havia acontecido com o Manchester, saiu de Inglaterra debaixo de fortes críticas. É verdade que o brasileiro não conseguiu, uma vez mais, corresponder totalmente às expectativas criadas em torno de si em jogos internacionais e que esta foi mais uma oportunidade desperdiçada para mostrar todas as suas capacidades na maior montra de futebol mundial, mas existem atenuantes que é preciso saber analisar e compreender. A crítica precipitada, feita de cabeça quente, pode ser tão destrutiva e prejudicial quanto injusta, logo, há que saber reflectir antes de falar.
Em primeiro lugar, os ingleses não andam a dormir. É preciso assumir que, do outro lado da barricada, está uma equipa com elevada experiência em competições internacionais, recheada de jogadores de alto nível e que faz o trabalho de casa antes dos jogos, logo, era previsível que o Chelsea iria dedicar a Hulk uma marcação rigorosa e apertada. Retirar espaço ao jogador mais criativo e desequilibrador da equipa portista é meio caminho andado para anular as investidas do ataque azul e branco. Esta situação acontece com Hulk como acontecerá, por exemplo, com Cristiano Ronaldo quando o Real Madrid enfrentar equipas do seu nível. A diferença é que, numa constelação de estrelas como é a de Madrid, se um dos galácticos for anulado existirá sempre outro para brilhar na sua vez, enquanto que no FC Porto não existe nenhum jogador com as características de Hulk que permita compensar a sua menor produtividade quando é anulado pelo adversário. Por outras palavras, não são raras as vezes em que Hulk tem de carregar o piano sozinho e é injusto que o critiquem quando lhe falham as pernas ao subir umas escadas mais íngremes.
Em segundo lugar, há que assumir de uma vez por todas que o Hulk não consegue produzir futebol com a mesma eficácia quando joga no centro do terreno e aqui a responsabilidade é do Jesualdo Ferreira. A verdadeira força do Hulk reside na sua velocidade e capacidade de explosão, pelo que ele tem de jogar de frente para a baliza adversária, de forma a receber os passes rasgados para a sua frente e embalar em corrida. Esta situação só é possível se Hulk jogar pelas alas porque, estando no centro do terreno, ele tem de se posicionar de costas para a baliza adversária, o que lhe retira espaço de manobra e prende-o nos movimentos, tornando-o presa fácil para os defesas. Nesta perspectiva, é legítimo criticar o treinador portista por ter tomado tardiamente a decisão de fazer entrar Falcao para o eixo do ataque, em detrimento de Mariano González que (esse sim!) fez uma paupérrima exibição.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Primeiro o STA, depois o TACL

Depois de, em Novembro de 2008, o Supremo Tribunal Administrativo (STA) ter considerado ilegal a utilização de escutas telefónicas no processo Apito Final, eis que o Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa (TACL) vem agora reiterar essa decisão, anulando definitivamente o acórdão do Conselho de Justiça da Federação que condenou o presidente da União de Leiria com base nesse meio de prova. No entanto, apesar dos tribunais serem claros e inequívocos sobre esta questão, o presidente da Comissão Disciplinar da Liga violou a decisão do STA insistindo na ideia de que a ilegalidade da utilização das escutas em nada interfere na condenação de Pinto da Costa uma vez que tal decisão foi fundamentada noutros meios de prova. Depreende-se que a prova a que Ricardo Costa se refere é o depoimento de Carolina Salgado e, como tal, não é difícil prever que a CD recusar-se-á a rever o seu acórdão pelo menos até que seja resolvido o processo que decorre ainda em tribunal e no qual a ex-companheira de Pinto da Costa é acusada de ter cometido perjúrio.
Ricardo Costa mantém-se assim firmemente agarrado à única tábua de salvação que lhe resta, mesmo depois dos tribunais civis o terem deixaram completamente isolado perante a ilibação de Pinto da Costa em todos os processos. Tal atitude poderá ser encarada à partida como uma demonstração de força de carácter, mas não esconde um facto inegável e grave: independentemente da legitimidade que possa ter para manter a condenação do presidente portista, o presidente da CD utilizou meios de prova ilegais no decorrer dos processos, o que põe em causa a sua credibilidade e idoneidade. De facto, não se esperava que um juiz cometesse o erro crasso de utilizar meios ilegais para condenar um cidadão. Se o fez, é do mais elementar bom senso que explique porque o fez. O problema é que, contrariando a sua atitude inicial em que surgiu na comunicação social rodeado de pompa e circunstância para explicar ao povo o papel preponderante que teve na condenação dos arguidos, o digníssimo doutor parece agora pouco interessado em expor-se publicamente, deixando assim aberto o caminho para a especulação e a suspeição. Sendo assim, nada nos impede de pensar que a insistência na condenação do FC Porto e do seu presidente em nada se deve às suas fortes convicções, mas sim ao receio de que a anulação desse acórdão abra as portas a um processo de indemnização por danos morais e patrimoniais desastroso para os cofres da Liga. Estaremos a ser injustos ao não reconhecer as nobres intenções do dr. Ricardo Costa? Talvez. Mas não esqueçamos que é ele próprio quem nos dá a legitimidade para o fazer com o seu silêncio.

O arcanjoão Gabriel

Nenhuma outra figura bíblica consegue reunir em torno de si tanta devoção de cristãos e muçulmanos da forma consensual como o arcanjo Gabriel faz. Segundo a Bíblia, foi Gabriel quem apareceu perante a Virgem Maria para lhe anunciar que seria mãe de Jesus, da mesma forma que, segundo o Corão, surgiu perante Maomé para lhe entregar uma mensagem de Deus revelando-lhe as suas obrigações como profeta.
Infelizmente, nem todos os “Gabriéis” possuem a mesma capacidade de reunir em si o consenso Universal e alguns há que, quando abrem a boca, conseguem proferir bestialidades de extrema gravidade, capazes de gerar o ódio e a discórdia entre os mais pacatos cidadãos.
João Gabriel tinha o dever e a obrigação de medir as suas palavras de cada vez que vem a público, no papel de director de comunicação do Benfica, comentar qualquer assunto (quanto mais não fosse pelo facto de ter sido assessor de Jorge Sampaio na Presidência da República, com todo o prestígio e responsabilidade cívica que tal cargo lhe confere). Lamentavelmente, o antigo jornalista dá mostras de ter mandado às malvas toda a dignidade no momento em que vestiu o fato de director encarnado e não perde uma oportunidade para incendiar a opinião pública com as suas inusitadas opiniões.
Na época passada, quando o Benfica conquistou a Taça da Liga beneficiando da preciosa colaboração do árbitro Lucílio Baptista, João Gabriel cobriu-se de ridículo (e consigo o clube que representa) ao aparecer na TV acusando os sportinguistas de má-fé. De acordo com a sua teoria, o Sporting nada tinha a reclamar, pelo que a revolta manifestada pelos Leões se devia, única e exclusivamente, à intenção de coagir os árbitros a decidir em seu favor em futuros lances duvidosos. Nem mesmo as imagens televisivas, cuja clareza não deixava qualquer margem para dúvida sobre a crassidade do erro de Lucílio Baptista, foram capazes de suavizar o tom crítico e acusador com que o director encarnado se dirigiu aos vizinhos da 2ª Circular. Fossem os papeis invertidos e eu queria ver o que não especularia Gabriel sobre as intenções do árbitro...
Já esta semana, perante as notícias que davam conta da suspensão de um delegado por ter falsificado o relatório do jogo Benfica-Nacional escamoteando do mesmo as cenas deploráveis que aconteceram no túnel da Luz, João Gabriel voltou ao ataque, disparando contra tudo e todos. Nem Jesualdo Ferreira e o FC Porto escaparam à sua fúria devastadora. A Liga foi acusada de agir sem provas que justificassem o castigo aplicado ao seu delegado e os Dragões foram acusados de terem protagonizado, no passado, cenas semelhantes às ocorridas no túnel da Luz. O mais ridículo de tudo isto é que João Gabriel se esquece que existem de facto imagens vídeo, cedidas pelo próprio Benfica, que comprovam o acto ilícito do delegado, para além do testemunho de várias pessoas presentes no local por altura dos acontecimentos. Além disso, esquece-se também que, no passado, o seu clube e respectivos dirigentes estiveram sempre na vanguarda daqueles que, incansavelmente, criticavam e acusavam o FC Porto pelos alegados incidentes ocorridos no túnel das Antas. É caso para dizer: olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço.
Sempre que o Benfica se vê envolvido em escândalos, João Gabriel possui imaginação (e despudor) de sobra para inventar os mais variados pretextos na tentativa de justificar o injustificável. Num clube que não se cansa de propagandear a sua alegada preocupação com a verdade desportiva e a transparência no futebol, é caricato que um dos seus directores dê mostras tão evidentes de falta de honestidade e de capacidade para assumir os seus próprios erros. Mais grave do que isso, é essa atitude recorrente de criar guerras desnecessárias com os clubes rivais à custa de acusações hipócritas e despropositadas sempre que se vê em situação delicada, incendiando assim os ânimos daqueles que não têm a firmeza moral suficiente para perceberem que tal não passa de uma deplorável estratégia para desviar as atenções.