terça-feira, 15 de setembro de 2009

O arcanjoão Gabriel

Nenhuma outra figura bíblica consegue reunir em torno de si tanta devoção de cristãos e muçulmanos da forma consensual como o arcanjo Gabriel faz. Segundo a Bíblia, foi Gabriel quem apareceu perante a Virgem Maria para lhe anunciar que seria mãe de Jesus, da mesma forma que, segundo o Corão, surgiu perante Maomé para lhe entregar uma mensagem de Deus revelando-lhe as suas obrigações como profeta.
Infelizmente, nem todos os “Gabriéis” possuem a mesma capacidade de reunir em si o consenso Universal e alguns há que, quando abrem a boca, conseguem proferir bestialidades de extrema gravidade, capazes de gerar o ódio e a discórdia entre os mais pacatos cidadãos.
João Gabriel tinha o dever e a obrigação de medir as suas palavras de cada vez que vem a público, no papel de director de comunicação do Benfica, comentar qualquer assunto (quanto mais não fosse pelo facto de ter sido assessor de Jorge Sampaio na Presidência da República, com todo o prestígio e responsabilidade cívica que tal cargo lhe confere). Lamentavelmente, o antigo jornalista dá mostras de ter mandado às malvas toda a dignidade no momento em que vestiu o fato de director encarnado e não perde uma oportunidade para incendiar a opinião pública com as suas inusitadas opiniões.
Na época passada, quando o Benfica conquistou a Taça da Liga beneficiando da preciosa colaboração do árbitro Lucílio Baptista, João Gabriel cobriu-se de ridículo (e consigo o clube que representa) ao aparecer na TV acusando os sportinguistas de má-fé. De acordo com a sua teoria, o Sporting nada tinha a reclamar, pelo que a revolta manifestada pelos Leões se devia, única e exclusivamente, à intenção de coagir os árbitros a decidir em seu favor em futuros lances duvidosos. Nem mesmo as imagens televisivas, cuja clareza não deixava qualquer margem para dúvida sobre a crassidade do erro de Lucílio Baptista, foram capazes de suavizar o tom crítico e acusador com que o director encarnado se dirigiu aos vizinhos da 2ª Circular. Fossem os papeis invertidos e eu queria ver o que não especularia Gabriel sobre as intenções do árbitro...
Já esta semana, perante as notícias que davam conta da suspensão de um delegado por ter falsificado o relatório do jogo Benfica-Nacional escamoteando do mesmo as cenas deploráveis que aconteceram no túnel da Luz, João Gabriel voltou ao ataque, disparando contra tudo e todos. Nem Jesualdo Ferreira e o FC Porto escaparam à sua fúria devastadora. A Liga foi acusada de agir sem provas que justificassem o castigo aplicado ao seu delegado e os Dragões foram acusados de terem protagonizado, no passado, cenas semelhantes às ocorridas no túnel da Luz. O mais ridículo de tudo isto é que João Gabriel se esquece que existem de facto imagens vídeo, cedidas pelo próprio Benfica, que comprovam o acto ilícito do delegado, para além do testemunho de várias pessoas presentes no local por altura dos acontecimentos. Além disso, esquece-se também que, no passado, o seu clube e respectivos dirigentes estiveram sempre na vanguarda daqueles que, incansavelmente, criticavam e acusavam o FC Porto pelos alegados incidentes ocorridos no túnel das Antas. É caso para dizer: olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço.
Sempre que o Benfica se vê envolvido em escândalos, João Gabriel possui imaginação (e despudor) de sobra para inventar os mais variados pretextos na tentativa de justificar o injustificável. Num clube que não se cansa de propagandear a sua alegada preocupação com a verdade desportiva e a transparência no futebol, é caricato que um dos seus directores dê mostras tão evidentes de falta de honestidade e de capacidade para assumir os seus próprios erros. Mais grave do que isso, é essa atitude recorrente de criar guerras desnecessárias com os clubes rivais à custa de acusações hipócritas e despropositadas sempre que se vê em situação delicada, incendiando assim os ânimos daqueles que não têm a firmeza moral suficiente para perceberem que tal não passa de uma deplorável estratégia para desviar as atenções.

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