terça-feira, 6 de outubro de 2009

Que Deus nos dê paciência

Não há dúvidas nenhumas de que a escolha de Duarte Gomes para arbitrar o clássico do Dragão entre o Porto e o Sporting foi um erro monumental de quem dá mostras de não ter sensibilidade absolutamente nenhuma para as questões do futebol. Com uma grande dose de boa vontade, talvez possamos acreditar que Vítor Pereira teve apenas a intenção de separar as águas e demonstrar a sua total confiança nas capacidades do árbitro, provando assim que o contencioso existente entre o clube leonino e Duarte Gomes não teria qualquer influência no decorrer da partida. Mas, sabendo de antemão que todos os árbitros cometem erros e que o jogo em questão não seria fácil de gerir (um clássico nunca o é), e se aliarmos isso ao facto do passado do Sporting estar pejado de litígios com o sector da arbitragem muitas vezes alimentados por uma doentia mania de perseguição, não era difícil antever que esta escolha tinha tudo para acabar em mais uma bronca à boa maneira portuguesa. Posto isto, se Paulo Bento tivesse proferido antes do jogo algum comentário sobre a insensatez da escolha do árbitro, todos nós nos veríamos na obrigação de lhe dar razão. O problema é que o treinador leonino "fechou-se em copas" e toda a gente percebeu que ele só estava a aguardar o final do jogo para partir a loiça agarrando-se a um qualquer pretexto. A intenção de Paulo Bento era tão previsível que perdeu o efeito surpresa e fez com que muita gente se limitasse a dar um enorme bocejo enquanto assistia às imagens do treinador a invadir o terreno de jogo com dois dedos em riste para ir berrar aos ouvidos do árbitro que o coitadinho do Miguel Veloso só tinha feito duas faltas. Ridículo!
Não creio que exista nenhum estudo científico que comprove a minha teoria, mas ainda assim eu arrisco-me a afirmar que não deve existir ninguém à face da Terra que goste de perder. O que poderá existir, isso sim, são algumas (poucas) pessoas capazes de disfarçar o mal-estar que a derrota lhes provoca e outras (ainda em menor número) capazes de lidar com o insucesso, retirando dele ilações que lhes permita corrigir os erros e fortalecerem-se. Mas mesmo assumindo que o mau perder faz parte da essência humana, esse facto não pode servir como justificação para o descontrolo emocional e a insubordinação de que algumas pessoas dão mostras de padecer. Paulo Bento é um treinador jovem e ambicioso que, com toda a legitimidade, alimentou sonhos e traçou projectos para o seu futuro. Infelizmente para ele, não tem conseguido conquistar os resultados que tanto ambiciona e que lhe poderiam servir de trampolim para subir na carreira. Os constantes insucessos estão, cada vez mais, a apoderar-se do seu discernimento e bom-senso, de tal forma que já nem consegue disfarçar o desespero que o invade no momento da derrota.
Apesar da sua gravidade, as cenas lamentáveis que protagonizou e as declarações que proferiu no final do jogo do Dragão já não espantam ninguém e acabam por transformar Paulo Bento numa versão moderna da história do Pedro e do Lobo em que o menino, de tantas vezes protestar sem razão, perdeu a credibilidade perante o público. O castigo de doze dias de suspensão aplicado pela Liga é obviamente escasso, principalmente se considerarmos que se trata de uma reincidência em comportamento anti-desportivo, mas, paradoxalmente, a benevolência do castigo acaba por ridicularizar ainda mais a já depauperada imagem do treinador leonino, pois retira-lhe importância e gravidade. Faz lembrar um menino atrasado mental que parte o prato pela quinquagésima vez e a mãe, compassivamente, se limita a chamar-lhe a atenção, sabendo que só com muita paciência conseguirá lidar com as limitações intelectuais da criança.

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