domingo, 22 de novembro de 2009

Benfiquismo: o cancro da sociedade portuguesa

Eu simpatizo com o SL Benfica enquanto instituição desportiva pelo seu longo historial em prol do desporto português, respeito o clube pela boa imagem de Portugal que transmitiu além fronteiras nos seus tempos áureos e admiro-o pelo que fez em benefício de muitas gerações de jovens desportistas. Digo isto com a mesma frontalidade com que assumo a minha mais completa repulsa por esse verdadeiro cancro da sociedade portuguesa que é o benfiquismo.
A esmagadora maioria dos benfiquistas são pessoas que nasceram em cidades de menor dimensão ou em vilas e aldeias de Portugal e que, por uma questão de vergonha ou de falta de orgulho no pouco que possuem, optam pelo caminho fácil de se dizerem adeptos do Benfica, convencidos de que isso lhes atribui um estatuto superior de forma cómoda e sem esforço. Ser benfiquista representa assim a intenção medíocre de lucrar sem trabalho, a auto-promoção social à custa dos louros alheios, a incompetência e a preguiça para lutar pelo desenvolvimento e crescimento daquilo que é verdadeiramente seu. Não admira, portanto, que os benfiquistas sejam, entre os adeptos dos três clubes grandes, aqueles que mais uso fazem de epítetos extraordinários e espampanantes com que se referem ao seu clube: o “Glorioso”, “o Colosso”, o “Maior do Mundo”, o "Clube dos 6 milhões", etc. Tudo isto faz parte do show-off montado em torno do Benfica, um cenário de grandeza fictícia que serve para alimentar os egos dos benfiquistas na sua pretensão de se auto-promoverem à custa do clube lisboeta.
Também não admira que os benfiquistas reajam de forma tão agressiva, por vezes fanática, sempre que o Benfica é criticado ou alvo de uma qualquer acusação, por mais fundamentada e legítima que esta seja. Na verdade, não é o facto do clube em si ser atacado que origina essa reacção intempestiva e desmesurada, pois a sua relação com o clube é extremamente distante. É, isso sim, o facto de sentirem que a crítica ou a acusação põe em causa a sua própria imagem enquanto benfiquistas, essa imagem que adoptaram para auto-promoção, transformando assim aquilo que não deveria passar de um assunto do foro futebolístico numa questão pessoal, um ataque à sua própria pessoa.
Na sua esmagadora maioria, os benfiquistas vivem a centenas de quilómetros de Lisboa e passam as suas vidas sem nunca porem os pés no Estádio da Luz, algo que contraria frontalmente aquilo que se entende por ser adepto. No entanto, o distanciamento que se verifica entre os benfiquistas e o Benfica não é apenas geográfico mas também cultural, pois estas pessoas pouco ou nada se identificam com a cultura lisboeta: não gostam de touradas, não ouvem fado, não comem caracóis, não falam com a efeminada pronúncia alfacinha, não festejam o Santo António, não chamam “bica” ao café expresso, etc, etc, etc. Assim, para justificar a sua improvável ligação a um clube de Lisboa, adoptam muitas vezes justificações filosóficas do tipo "existe uma mística que ninguém consegue explicar…", o que não passa, no fundo, de uma desculpa esfarrapada para justificar algo que não têm coragem nem interesse em reconhecer: a sua falta de capacidade para lutar por aquilo que é verdadeiramente seu.
É evidente que esta estratégia de auto-promoção fácil nem sempre funciona como se espera, principalmente porque existem outros portugueses que não se deixam enveredar por este “carneirismo” e que teimam em defender e desenvolver os clubes das suas próprias cidades, impedindo assim que o Benfica consiga concretizar as conquistas desportivas que permitiriam fundamentar os epítetos e a imagem de grandeza fictícia criada em torno de si. Além disso, apesar do show-off que tanto gostam de alimentar, os benfiquistas mais jovens nunca viram o Benfica vencer nenhuma competição internacional, nunca sentiram a emoção de festejar nas ruas da sua cidade a conquista de uma Liga dos Campeões Europeus, não conhecem o orgulho de ver o seu clube atingir o topo do futebol mundial ganhando uma Taça Intercontinental. Os feitos gloriosos do passado longínquo são-lhes transmitidos por relatos na terceira pessoa e por imagens a preto e branco. Pelo contrário, os adeptos rivais da mesma idade já festejaram, por esta altura das suas vidas, vários troféus internacionais. Este facto choca frontalmente com a sua versão de “Glorioso”, “Colosso” e “Maior do Mundo”, suscitando invejas, frustrações e ódios que, por sua vez, originam a segunda influência mais nefasta do benfiquismo na sociedade portuguesa: a desvalorização do mérito alheio e a responsabilização de terceiros pelos erros próprios em absurdas e infantis teorias de conspiração.
No início da época passada, os benfiquistas tentaram roubar ao FC Porto o lugar na Liga dos Campeões à custa de um estratagema de secretaria que, mais do prejudicar o clube azul e branco, veio denegrir a imagem de Portugal aos olhos da Europa. Também o fim do processo Apito Dourado, com os resultados que se conhecem, veio demonstrar que o mesmo não passou de mais uma estratégia obscena e desesperada para roubar ao FC Porto aquilo que conquistou com inteiro mérito. Estes são dois dos melhores exemplos da frustração a que o benfiquismo chegou na sua ânsia de destruir aqueles contra quem não tem argumentos para vencer de forma limpa e ilustram a política de terra queimada adoptada, em extremo desespero, pelos benfiquistas: se não podemos conquistar, destruímos tudo. É óbvio que esta política só terá sucesso enquanto a imprensa lisboeta, impregnada de jornalistas intelectualmente corruptos, continuar a dar-lhe cobertura, numa descarada inversão dos valores de ética e isenção jornalísticos que lhes são exigidos, muitas vezes hipocritamente justificada com as alegadas necessidades de sobrevivência financeira. E claro, enquanto as autoridades lisboetas continuarem a esbanjar milhões de euros que são de todos nós em processos estéreis que apenas servem para alimentar o ego e esconder a frustração de alguns.
Qualquer pessoa que goste de futebol sabe que os campeonatos de Espanha e de Inglaterra são os maiores e mais competitivos da Europa. Quem acompanha estes campeonatos com certeza já constatou que, em qualquer dos jogos realizados, os estádios estão cheios de adeptos que apoiam a equipa que joga em casa, mesmo quando esta recebe a visita de clubes de maior dimensão. Isto acontece porque, nestes países, a população goza de um forte espírito bairrista ou mesmo regionalista, o que permite que cada clube beneficie do apoio incondicional da população da cidade ou região que representa, tornando-se assim mais competitivo e financeiramente mais estável. Ninguém duvida que o Barcelona não seria o colosso que é se não fosse pelo poder mobilizador que possui como bandeira da Catalunha. Ninguém duvida que o Manchester United nunca seria o que é se as suas gentes optassem por apoiar as equipas de Londres. Ora, esta situação não acontece em Portugal porque, graças aos interesses de Lisboa, generalizou-se, junto da população, a ideia pré-concebida de que o bairrismo e o regionalismo são coisas negativas prejudiciais aos país. Assim, apesar de existirem alguns clubes de carácter claramente regionalista (como são os casos do FC Porto e do V. Guimarães), a maioria dos portugueses enveredou pelo benfiquismo, o que contribuiu para a derrocada completa da competitividade do campeonato português. De facto, não faz sentido absolutamente nenhum que um país pequeno, com apenas 10 milhões de habitantes, tenha 3 milhões de seguidores do mesmo clube (e não os 6 milhões que algum pateta se lembrou de inventar e que muita gente ignorante assumiu como realidade). Nem faz sentido que vastas regiões do país com importância económica e política (como são os casos de Trás-os-Montes, Algarve e Alentejo) não possuam presentemente nenhum clube representativo na Primeira Liga, salvo a honrosa excepção do Olhanense que subiu de Divisão este ano. Se isto acontece é porque algo está muito errado em Portugal.

Crónica de uma polémica anunciada

Por muito mau que fosse o terreno de jogo na Bósnia, pretender, de alguma forma, comparar esse relvado com esta espécie de pantanal onde a FPF pretendia realizar o jogo entre a UD Oliveirense e o FC Porto para a Taça de Portugal só pode ser uma brincadeira de mau gosto ou uma demonstração de completa desonestidade. De facto, basta observar as imagens televisivas para perceber que o relvado bósnio era um verdadeiro tapete verde quando comparado com aquela massa disforme de cor acastanhada em que a chuva transformou o relvado do Estádio Carlos Osório. Não obstante este facto, a verdade é que a FPF protestou veementemente a decisão da FIFA de permitir a realização do jogo Bósnia-Portugal num relvado em más condições mas, poucos dias depois, pretendeu realizar um jogo da Taça de Portugal noutro relvado que estava visivelmente em muito pior estado que o da Bósnia, o que é totalmente incompreensível e inaceitável. E já agora acrescente-se que também não se compreende que a maioria dos portugueses tenha concordado com a posição da FPF em relação ao jogo do play-off para o Mundial e agora venha tomar uma posição completamente contrária em relação ao jogo da Taça de Portugal. Mudaram de ideias sobre o assunto dos relvados só porque agora é o FC Porto a protestar? A isso, na minha terra, chama-se hipocrisia. E se a isto juntarmos o facto dos Pescadores da Costa da Caparica irem receber o Sporting em casa emprestada, mais precisamente no Estádio do Restelo, sem que tal facto tenha motivado qualquer reacção de protesto destes pseudo-defensores da verdade desportiva, então estamos conversados quanto aos verdadeiros motivos que movem esta gente.
Além do relvado, a FPF protestou também pelo facto da FIFA ter permitido que o estádio bósnio enchesse muito acima da sua capacidade máxima. Não se compreende que agora venha alegar que estavam reunidas todas as condições de segurança quando era do conhecimento público que o clube de Oliveira de Azeméis tinha mandado retirar as cadeiras para duplicar a capacidade do estádio. E, acrescente-se mais uma vez, também não se compreende a mudança de opinião do público sobre esse assunto em tão poucos dias, em mais uma evidente demonstração de hipocrisia e incongruência que só vem reforçar a triste e medíocre imagem do povo português.
Qualquer pessoa com um par de olhos na cara e dois dedos de testa percebe que todo este imbróglio devia ter sido evitado pela FPF e que tal só aconteceu graças à incompetência de quem dirige o futebol português. Se existe alguém que merece ser criticado, esse é, obviamente, a FPF, e nunca os clubes intervenientes que acabaram por ser as principais vítimas desta situação. A tentativa forçada de lançar as culpas para cima do FC Porto quando este, com toda a legitimidade e de forma atempada, se preocupou em chamar a atenção das entidades responsáveis para problemas que eram visíveis e óbvios aos olhos de toda a gente, não passa de uma manobra de diversão tão óbvia e descarada que só convence as mentes mais simplórias. Infelizmente, em Portugal parecem existir seis milhões destas.