sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A cena do gajo que ressuscitou

Pela experiência de vida que possuo e pelo conhecimento que tenho de Portugal, já poucas coisas me chocam verdadeiramente neste pobre país. No entanto, tenho de reconhecer que, por vezes, ainda há situações que me surpreendem ou causam alguma estranheza. Talvez devido à minha formação académica científica e à minha vocação de engenheiro, tenho a tendência de racionalizar em demasia as minhas análises, o que nem sempre é o melhor caminho na busca de explicações quando abordamos questões futebolísticas onde os mais profundos instintos irracionais do ser humano vêm ao de cima. Vem isto ainda a propósito da publicação no YouTube das escutas telefónicas conexas ao Apito Dourado, sobre as quais se tem feito um enorme alarido que eu, pura e simplesmente, não consigo entender. De facto, tenho sido muitas vezes confrontado neste blogue por vários benfiquistas que me acusam de não dar a devida importância às referidas escutas. Ora, como eu já aqui expliquei inúmeras vezes, a minha atitude aparentemente desinteressada sobre o assunto não se prende com uma eventual tentativa de desvalorização do mesmo, mas apenas com o facto de considerar que a colocação das escutas no YouTube não veio alterar absolutamente nada num processo que já foi investigado, julgado e arquivado.
Ao contrário daquilo que muitas pessoas alegam demonstrando uma total ignorância sobre o assunto, estas escutas telefónicas não foram retiradas dos processos de justiça civil que decorreram nos tribunais. No entanto, a maioria dos processos em que as escutas foram utilizadas como meio de prova foi arquivada ainda na fase de instrução e um deles, conhecido por “Caso do Envelope” (o único que foi a julgamento), culminou na ilibação do Pinto da Costa pelo facto dos tribunais terem considerado que as escutas eram inconclusivas quanto à existência de qualquer acto ilícito de corrupção de árbitros ou manipulação de resultados. No processo que ficou conhecido como "Caso da Fruta", ainda na fase de instrução o juiz Artur Ribeiro decidiu não pronunciar os arguidos tendo considerado que "só ficcionando ou conjecturando" se poderia aceitar os termos da acusação formulada pelo Ministério Público, isto porque as escutas não continham absolutamente nada de incriminatório. Como facilmente se constata, a opinião manifestada pelos juízes nos acórdãos dos tribunais contraria frontalmente todos aqueles que, movidos pelo fanatismo doentio, conseguem descortinar nas escutas mil e um motivos para condenar Pinto da Costa. Felizmente para todos nós, Portugal já não se rege pelo sistema legal da Idade Média que foi responsável pela condenação de muitas pessoas à morte na fogueira, acusadas de bruxaria por multidões histéricas que juravam a pés juntos tê-las visto a voar montadas numa vassoura.
O único processo em que as escutas foram efectivamente retiradas por ordem do Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa (TACL) foi o Apito Final, instaurado pela Comissão Disciplinar da Liga, por se tratar de um processo de índole disciplinar. No entanto, a ordem do TACL não produziu qualquer efeito prático porque o presidente da CD, Dr. Ricardo Costa, recusou-se a alterar a sua decisão, alegando que a condenação do FC Porto (perda de 6 pontos) e do seu presidente (suspensão de 2 anos) tinha sido originada, não pelas escutas, mas outros meios de prova. Ou seja, até aqui as escutas foram desvalorizadas. Quanto aos outros meios de prova, Ricardo Costa refere-se com certeza ao testemunho de Carolina Salgado que, como todos sabemos, tem vindo a ser desmontado pelos tribunais civis. Ironicamente, a prova de que Carolina Salgado cometeu perjúrio em tribunal adveio exactamente da análise das escutas telefónicas que muita gente ingénua acreditou que serviriam para condenar Pinto da Costa. É caso para dizer: saiu o tiro pela culatra! Veremos pois como irá terminar o processo que decorre em tribunal contra a Carolina Salgado, pois, se ficar comprovado que a principal testemunha em que se baseia o Apito Final mentiu em tribunal, tal representará, não apenas a estocada final num processo já de si moribundo, mas também o descrédito do sistema de justiça desportiva que construiu toda a acusação com base no depoimento de uma testemunha parcial e pouco credível.
Além de tudo isto, a colocação das escutas no YouTube não veio trazer nenhum dado novo ao que já se sabia e que foi amplamente discutido na praça pública. Na verdade, os conteúdos dessas escutas já eram do conhecimento público uma vez que as suas transcrições foram publicadas por vários órgãos de comunicação social e encontravam-se disponíveis em inúmeros sites. Reconheço que ler os textos é muito diferente de ouvir a voz dos intervenientes e, nesse sentido, existe aqui alguma novidade, mas tal não veio aumentar nem diminuir a gravidade do conteúdo das escutas, tratando-se pois de uma falsa questão. Parece-me evidente que a maioria das pessoas que até agora se manifestavam a respeito das ditas escutas nem sequer se haviam dado ao trabalho de ler as suas transcrições, adoptando aquela atitude tão tipicamente portuguesa de falar sem saber exactamente de quê, baseando-se apenas no que ouviram dizer. Esta situação não causa surpresa pois, se tivermos em consideração a elevada taxa de analfabetismo que se verifica na sociedade portuguesa e a cada vez maior aversão dos jovens à leitura, é natural que muitas pessoas só tenham tido a noção do conteúdo das escutas quando tiveram acesso à versão audível das mesmas, o que explica o alarido que agora fazem sobre este assunto uma vez que, para elas, tal constitui novidade. Imagino que, se um dia destes, alguém se lembrar de colocar na Internet uma versão falada da Bíblia, iremos ouvir muitos ignorantes a dizer: “Já foste ao YouTube ver aquela cena do gajo que ressuscitou?”

1 comentário:

  1. Meu caro, não vivemos na idade média, mas voltamos ao tempo do nazismo, ou melhor, da máquina de propaganda nazi, cujo lema era: uma mentira muitas vezes repetida passa a ser verdade. Compete-nos, dentro das nossas possibilidades, desmontar essa propaganda.

    Um abraço

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