sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A revolta de Fernando Nobre

O presidente da AMI, Fernando Nobre, criticou hoje a posição das associações patronais que se têm manifestado contra aumentos no salário mínimo nacional. Na sua intervenção no III Congresso Nacional de Economistas, Nobre considerou "completamente intolerável" que exista quem viva "com pensões de 300 ou menos euros por mês", e questionou toda a plateia se "acham que algum de nós viveria com 450 euros por mês?"
Numa intervenção que arrancou aplausos aos vários economistas presentes, Fernando Nobre disse que não podia tolerar "que exista quem viva com 450 euros por mês", apontando que se sente envergonhado com "as nossas reformas".
"Os números dizem 18% de pobres... Não me venham com isso. Não entram nestes números quem recebe os subsídios de inserção, complementos de reforça e todos outros. Garanto que em Portugal temos uma pobreza estruturada acima dos 40%, é outra coisa que me envergonha..." disse ainda.
"Quando oiço o patronato a dizer que o salário minimo não pode subir.... algum de nós viveria com 450 euros por mês? Há que redistribuir, diminuir as diferenças. Há 100 jovens licenciados a sair do país por mês, enfrentamos uma nova onda emigratória que é tabu falar. Muitos jovens perderam a esperança e estão à procura de novos horizontes... e com razão", salientou Fernando Nobre.
O presidente da AMI, visivelmente emocionado com o apelo que tenta lançar aos economistas presentes no Funchal, pediu mesmo que "pensem mais do que dois minutos em tudo isto". Para Fernando Nobre "não é justo que alguém chegue à sua empresa e duplique o seu próprio salário ao mesmo tempo que faz uma redução de pessoal. Nada mais vai ficar na mesma", criticou, garantindo que "a sociedade não vai aceitar que tudo fique na mesma".
No final da sua intervenção, Fernando Nobre apontou baterias a uma pequena parte da plateia, composta por jovens estudantes, citando para isso Sophia de Mello Breyner. "Nada é mais triste que um ser humano mais acomodado", citou, virando-se depois para os jovens e desafiando-os: "Não se deixem acomodar. Sejam críticos, exigentes. A vossa geração será a primeira com menos do que os vossos pais".
Fernando Nobre ainda atacou todos aqueles que "acumulam reformas que podem chegar aos 20 mil euros quanto outros vivem com pensões de 130, 150 ou 200 euros... Não é um Estado viável! Sejamos mais humanos, inteligentes e sensíveis".

2 comentários:

  1. Meu caro, é por estas e por outras que eu tenho uma imensa admiração pelo Dr. Fernando Nobre, minha referência de português notável.

    Um abraço

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  2. Só aqui é que tive conhecimento destas palavras do Dr. Nobre. Não se deu destaque em mais lado nenhum da comunicação social. Realmente este assunto dava para dizer tanta coisa (mas mesmo muita) mas vou só comentar o facto de ele convidar os jovens a deixarem o comodismo e a serem críticos. Não dá, os mais velhos têm tudo controlado e quando algum jovem faz barulho de uma maneira audível e que obriga todos a pensarem naquela chamada de atenção, vem alguém e compra-lhe o silêncio. Lembro de um tipo jornalista que foi um dos criadores do movimento contra os recibos verdes. Depois de fazer "barulho" na entrega de uma medalha do Cavaco Silva a esse jovem, em que ele falou do pouco que ganhava e de que tinha um filho prestes a nascer e nem direito teria ao subsidio de desemprego se a qualquer momento fosse dispensado do jornal onde trabalhava, nunca mais apareceu a dizer nada nem a se queixar. Foi contratado a receber mais do que recebia a recibos verdes e provavelmente com a condição de parar de fazer aquilo tipo de "barulho". Isto em Portugal funciona um pouco como nas empresas de software em relação aos hackers: são atacados e depois contratam o atacante para não terem mais problemas com ele e para que ele os livre de outros que os ataquem. Mas sobre este assunto tinha tanto mais para dizer que até me cansa só de pensar nas várias coisas que podia dizer e que me revoltam neste momento em Portugal. As desigualdades existem e existirão mas nos países desenvolvidos e com funcionamento sério e de gente séria elas tendem a desaparecer enquanto nos países corruptos em que quem tem o poder distribui como quer e a quem quer, as desigualdades tendem a aumentar, sendo que normalmente, conduz ao desespero e aumento de criminalidade e todos os restantes efeitos negativos, inclusivamente na saúde, de todo o país. Já estive na Alemanha e vi um exemplo de igualdade que em Portugal é impossível, pois os salários são tão dispares dependo da "importância" da pessoa. Num bairro de casas bonitas e com jardins muito arranjados e todas as casas com bons carros à porta (sendo que isto dos carros na Alemanha não é nada de mais) uma das casas era de um português que era trolha. É verdade que já lá estava há mais de 25 anos mas a verdade é que pelo que soube por ele próprio, ele sempre ganhou menos que o vizinho médico e menos do que quem é advogado ou engenheiro, porém a diferença não era assim tão grande como em Portugal em que um médico pode facilmente ganhar 3000 euros por mês mas nunca um trolha ganha mais de 1500 e mesmo que seja o trolha mais capaz de uma grande uma grande empresa. Onde é que em Portugal um trolha, mesmo com 40 anos de profissão, tem uma casa bem boa num bairro bonito e com vizinhos médicos e advogados? Eu respondo:
    IMPOSSÍVEL. Nunca o deixariam.

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