quinta-feira, 29 de julho de 2010

Roberto - a comédia

No início de cada época, quando os clubes investem largas quantias na contratação de novos jogadores, é natural que os adeptos criem fortes expectativas sobre o valor desses reforços. Tais expectativas são por vezes tão irrealistas e desmesuradas que se transformam rapidamente numa fonte de pressão e desconforto para os jogadores, o que (como se já não bastassem as naturais dificuldades de adaptação iniciais) acabam por constituir uma dificuldade acrescida para quem acaba de ingressar num novo clube. Por esse motivo, não admira que já todos os clubes tenham tido a experiência de contratar jogadores que, não obstante o seu real valor (por vezes demonstrado posteriormente ao serviço de outros clubes), acabam por ser postos de lado logo à partida, simplesmente por não serem capazes de satisfazer de imediato as expectativas que em torno deles são criadas.
Só o tempo dirá se Roberto, o guarda-redes do Benfica recentemente comprado ao Atlético de Madrid, foi ou não uma boa aposta de Jesus, mas a verdade é que arrisca-se a tornar-se, desde já, numa das principais figuras desta época... e não pelos melhores motivos. De facto, o jovem espanhol começa a levar demasiado tempo para demonstrar que constitui um verdadeiro reforço da equipa e a sua ainda curta carreira no futebol português ficou já marcada por dois ou três episódios hilariantes (na gíria futebolística designados por "frangos") que em nada abonam sobre o seu valor. E se isto seria por si só suficiente para abalar as tais expectativas dos adeptos de que falei no início deste texto, pior se torna a situação de Roberto por carregar dois pesados fardos sobre os ombros: o primeiro, pelo facto de estar a substituir Quim, um guarda-redes que, não sendo perfeito, conquistou a simpatia da generalidade dos adeptos benfiquistas; o segundo, pelo facto de ter custado ao clube a módica quantia de 8,5 milhões de euros, uma fortuna se atendermos aos tempos de crise que a economia mundial atravessa.
Todos estes factores somados transformaram Roberto no principal protagonista de uma comédia que vai conhecendo, dia após dia, novos episódios e que está a deixar os dirigentes encarnados à beira de um ataque de nervos. O mais recente (e lamentável) episódio ocorreu quando dois jornalistas e um comentador da SporTV se envolveram numa conversa em "off" nos momentos que antecederem o jogo entre o Benfica e o Sunderland, conversa essa que não era suposto ser ouvida pelo público mas que, vá lá saber-se como, chegou aos ouvidos do presidente do Benfica. Nos minutos que durou a dita conversa, os referidos profissionais da SporTV trocaram várias chalaças sobre o novo guarda-redes do Benfica, fazendo (como não poderia deixar de ser) alusão directa aos frangos pelos quais o mesmo começa a ser conhecido. Para além de Roberto, também o treinador Jorge Jesus foi visado nos trocadilhos, ainda que menos cáusticos neste caso, tal como se pode confirmar a seguir:



Na sequência do sucedido, o Benfica não perdeu tempo a publicar no seu site oficial um comunicado, no qual, em jeito acusatório, critica o comportamento dos profissionais da SporTV e exige ao canal televisivo um pedido formal de desculpas. Ora, é precisamente esse comunicado que merece aqui alguns comentários:

1) Por muito que isso possa incomodar os dirigentes do Benfica, Portugal passou a ser, desde o dia 25 de Abril de 1974, um país democrático onde todos os cidadãos sem excepção (incluindo os jornalistas) são livres de terem a sua opinião pessoal no que se refere aos mais variados temas, incluindo política, religião e desporto.
2) Visto que a conversa foi mantida em "off", a mesma assume um carácter privado, não podendo ser encarada como atentatória dos princípios de isenção e idoneidade jornalística exigíveis aos profissionais da comunicação social na prática da actividade jornalística. Pelo mesmo motivo, a SporTV não poderá também ser responsabilizada pelo conteúdo das conversas que os seus profissionais mantêm em privado, incluindo aquelas que possam ocorrer (como foi o caso) em ambiente profissional. Nesse sentido, respondeu muitíssimo bem o canal de Joaquim Oliveira, lamentando o sucedido mas não assumindo a responsabilidade pelo mesmo.
3) A imputação das responsabilidades à SporTV e a exigência de um pedido formal de desculpas soa assim como uma patética chantagem psicológica com o objectivo de subalternizar o canal televisivo aos interesses do clube, bem como uma tentativa desesperada de silenciar todos aqueles que criticam a sua política de contratações.
4) A haver um verdadeiro culpado pelo clima de maledicência que se instalou em torno do clube da Luz, esse é, sem dúvida, o seu presidente, por ser o principal responsável na contratação de Roberto. Vistas as coisas por este prisma, deveria ser Filipe Vieira o primeiro a pedir desculpas ao Benfica.
5) Será que todos nós devemos um pedido de desculpas ao Benfica por fazermos humor em torno dos "frangos" de Roberto?
6) Será que alguma vez o Benfica pedirá desculpa pelas chalaças que os seus próprios adeptos fazem sobre as contratações falhadas e as fífias dos guarda-redes dos outros clubes?
7) Se os dirigentes benfiquistas se preocupam verdadeiramente com a isenção e a idoneidade jornalística, é de todo conveniente que não percam tanto tempo com as opiniões privadas dos jornalistas, mas antes com as posições frontalmente assumidas por um determinado sector da comunicação social claramente identificado com a cor encarnada, essas sim atentatórias dos mais básicos princípios do jornalismo. Por exemplo, o facto de uma determinada jornalista, bem conhecida pelo benfiquismo primário que transparece em tudo o que escreve, ter acumulado funções de funcionária do clube da Luz e de comentadora num jornal desportivo (também ele conotado com o Benfica), não constituirá maior motivo de preocupação e de indignação do que uma simples conversa em "off"?
8) Não fica bem a um clube publicar um comunicado que começa por afirmar que "Fomos surpreendidos, durante a manhã desta quarta-feira, com comentários depreciativos..." e logo a seguir acrescentar que "É uma situação que se lamenta mas que não surpreende." Transmite um certo... amadorismo.

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