quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Jesus crucificado

Não era preciso ser perito em futebol (nem tão pouco adivinho) para antever que o Benfica teria muitas dificuldades para manter, na corrente época, o êxito que teve na época passada. Com isto não me estou a referir apenas ao facto do clube da Luz não ter conseguido manter determinados elementos em altos cargos da Liga, dos quais se destaca o ex-presidente da Comissão Disciplinar, Ricardo Costa, cujos serviços foram preponderantes na caminhada dos encarnados rumo ao título. Refiro-me, isso sim, ao facto da contratação dos melhores jogadores do seu plantel só ter sido possível graças à forte comparticipação de investidores privados que, como se previa, forçaram a venda desses mesmos jogadores imediatamente após a conquista do campeonato, no sentido de retirar o máximo proveito da sua valorização. Ora, parece-me evidente que não terá sido por vontade de Jorge Jesus que Di Maria e Ramirez, duas pedras fundamentais no xadrez da equipa, foram vendidos. Nem terá sido por indicação de JJ que a SAD benfiquista decidiu desbaratar milhões de euros na contratação de jogadores de qualidade duvidosa, dos quais Roberto é apenas um exemplo. Nem tão pouco será por sua culpa que vários jogadores demonstram um claro desinteresse pelo jogo, provavelmente por terem visto defraudadas as suas expectativas de saírem para clubes de maior dimensão. Por todos estes motivos, é óbvio que o descalabro que se abateu sobre o Benfica no Dragão, reflectido numa exibição deplorável e numa goleada histórica, nunca poderia ser atribuído, única e exclusivamente, a uma má estratégia do treinador, mas antes a todo um conjunto de erros que já vinham de trás e que passam, entre outros factores, por um mau planeamento da época e uma má gestão de recursos humanos. Obviamente, a constatação de tal evidência implica o imputar de responsabilidades à Direcção e o assumir da incompetência por parte de todo o conjunto de pessoas que constituem o clube, algo que a intelectualmente corrupta imprensa lisboeta, vendida aos interesses encarnados, não pretende que aconteça. Assim, na falta de erros de arbitragem que permitam desviar as atenções do povo (aquela que foi a estratégia adoptada ao longo das primeiras jornadas) e perante a crónica incapacidade de reconhecer o devido valor ao FC Porto, restou-lhes a alternativa de eleger JJ como o bode expiatório da desgraça benfiquista, transformando assim, num ápice, um treinador que diziam ser bestial e que levou o SLB à conquista do desejado título, numa besta incompetente. E enquanto os jornais vão procurando motivos para crucificar Jesus (havendo mesmo aqueles que já falam em despedimento, vá-se lá saber com que fundamento legal), ninguém tem coragem para reservar mais duas cruzes para Filipe Vieira e Rui Costa que, até ao momento, não tiveram sequer a dignidade de proferir uma só palavra.
Não quer isto dizer que JJ esteja isento de culpas no mau momento que o Benfica atravessa. É óbvio que o treinador falhou na forma como preparou a equipa para o confronto com o FC Porto, um facto que se tornou cada vez mais evidente com o decorrer do jogo e com o avolumar do resultado. A colocação de David Luiz na posição de lateral esquerdo pode ser explicada pelo facto de ser reconhecida a aptidão do jogador encarnado para travar os adversários fazendo uso de todo o tipo de recursos (algo que Hulk pôde confirmar logo nos instantes iniciais da partida quando o seu conterrâneo o atingiu com a mão na cara), mas a velocidade e garra que o Incrível imprimiu ao jogo fez desmoronar a estratégia do adversário, deixando JJ numa posição delicada perante a crítica. No entanto, este erro de análise do treinador benfiquista, por muito crasso que possa ter sido, não explica tudo, ao contrário do que a imprensa pretende fazer crer. Se por um lado é verdade que o corredor direito da defesa encarnada foi uma auto-estrada para os avançados azuis-e-brancos (o que explica a goleada sofrida) não é menos verdade que os visitantes foram incapazes de construir uma jogada de ataque com cabeça, tronco e membros, tendo saído do Dragão sem um único golo marcado e com apenas duas ou três verdadeiras oportunidades de golo criadas. Ora, que eu saiba, os médios e avançados jogaram nas mesmas posições a que estão habituados, pelo que a sua inoperância não se explica com erros do treinador, mas sim com uma evidente falta de soluções do plantel encarnado para fazer frente a um adversário que é claramente superior, por muito que isso custe a admitir à imprensa avençada do regime.

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