sábado, 3 de março de 2012

Deplorável espectáculo de mau perder

Como todos se recordam, Pedro Proença foi, recentemente, vítima de uma violenta agressão perpetrada por um adepto do Benfica. Nessa altura, foram muitos os dirigentes de clubes e outros agentes ligados ao futebol a condenar esse acto cobarde, considerando-o fruto de uma mente fanática e distorcida. Lamenta-se, no entanto, que muitos daqueles que, hipocritamente, surgem nestas situações a manifestar a sua solidariedade para com as vítimas da violência, sejam precisamente os maiores fomentadores deste ódio e fanatismo doentio dos adeptos ao incendiar os ânimos com declarações intempestivas proferidas a quente antes, durante e depois dos jogos.

Os clássicos entre os "grandes" do futebol português são, geralmente, disputados com grande intensidade emocional,  mas também com um rigor táctico, por vezes excessivo, que retira a espectacularidade desejável para confrontos desta dimensão. Talvez por esse motivo, vários analistas afirmaram esperar um jogo lento, desinteressante e com poucos golos. Ora, aquilo a que se assistiu na Luz foi tudo menos isso. Este Porto-Benfica foi um belo espectáculo de futebol e uma excelente propaganda para a modalidade, de tal forma que até a imprensa estrangeira  fez eco disso mesmo. Frente a frente estiveram os dois maiores emblemas e as duas melhores equipas de Portugal da actualidade, que disputaram o resultado, taco a taco, ao longo de 90 intensos minutos. Ora, nem os jogadores - pelo que fizeram dentro do campo - nem o público - incansável no apoio às suas equipas sem, em momento algum, ultrapassar os limites do civismo - mereciam o deplorável espectáculo de mau perder, mau desportivismo e mau profissionalismo protagonizado pelo presidente e treinador encarnados no final da partida.

Ao longo dos 15 infindáveis minutos do tempo de antena que a comunicação social lhe concedeu, num discurso pautado por sucessivas facadas, ora no Português, ora no bom-senso, Jorge Jesus tratou de sacudir a responsabilidade da derrota para o trio de arbitragem, repetindo até à exaustão as referências ao lance do 3º golo do FC Porto, obtido efectivamente em posição de fora-de jogo tal como as imagens documentam. Esquecidos ficaram os erros de arbitragem que favoreceram a sua própria equipa, todos os erros cometidos pelos seus jogadores e, como seria de esperar, a sua própria incapacidade para responder às substituições operadas pelo seu homólogo portista. Um discurso faccioso e patético, apoiado nas não menos deploráveis declarações de Filipe Vieira que já antes, começando por afirmar que não iria falar de arbitragem, desatou a vociferar uma série de acusações contra Pedro Proença, chegando ao cúmulo de sugerir que o árbitro, reconhecido adepto e sócio do clube lisboeta, se recusasse a ajuizar jogos do seu clube.

Eu sou da opinião que, sendo Portugal um país livre e democrático, as pessoas devem ter a liberdade de exprimir as suas opiniões. Por esse motivo, reconheço o direito a um dirigente, treinador ou jogador de, sentindo-se prejudicados, se manifestarem publicamente, cabendo, obviamente, a todos nós, cidadãos, também o direito de aquilatar a sua razão. Há, no entanto, que saber distinguir a liberdade da libertinagem. A liberdade exige a responsabilidade de cada um distinguir os limites do civismo e do respeito para com os outros. Ora, aquilo que Vieira e Jesus fizeram ultrapassa qualquer limite! Não se limitando a reclamar pelo erro, assumiram uma postura desvairada, descontrolada, pouco consentânea com a responsabilidade que os seus cargos lhes impõem, acusando directamente o árbitro e o seu auxiliar de prejudicarem ostensivamente o Benfica. Aos adeptos desculpam-se muitos dos seus desvarios motivados pela paixão clubística, mas até a esses se condenam os excessos e se exige bom-senso. Como se poderá agora ignorar tamanha falta de carácter de um dirigente e de um técnico? Quem assumirá a responsabilidade pelas consequências das suas palavras? 

Basta uma breve visita à blogosfera encarnada para se perceber que Pedro Proença é hoje um homem com a cabeça a prémio. Incendiados pelas declarações dos seus dirigentes, são muitos os adeptos do Benfica a manifestar a sua vontade de vingar a derrota pelas próprias mãos, pretendendo transformar esta inqualificável postura de puro fanatismo e irresponsabilidade criminosa numa espécie de "intifada", uma guerra-santa contra os "infiéis" que impedem o regresso do Benfica aos seus tempos áureos de completa hegemonia no futebol Português. A gravidade da situação chega ao ponto de haver quem publique um endereço, supostamente de Pedro Proença, com o intúito de passar das ameaças à confrontação física. Pergunto que mais terá de acontecer para que as autoridades percebam que têm a obrigação de agir em defesa, não apenas do cidadão Pedro Proença e seus colegas de profissão, mas também em nome da manutenção dos valores morais que se vão desmoronando graças aos devaneios irresponsáveis de quem não sabe viver em sociedade e julga que a defesa dos seus interesses mesquinhos e o atingir dos seus objectivos justifica qualquer acção sem olhar a meios.

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