sábado, 28 de abril de 2012

Batata frita, viva o fascismo!

No passado dia 22 de Março, partilhei aqui um comunicado do FC Porto, intitulado "A madrassa da Ericeira", que, como se recordam, dava conta de uma queixa apresentada no Ministério de Educação pelo pai de uma aluna da escola pré-primária da Ericeira. Em causa estava a atitude de uma educadora de infância que alterou a letra da popular canção infantil "Atirei o pau ao gato", acrescentando-lhe no final "batata frita, viva o Benfica".
Apesar de considerar que o caso merecia uma reflexão, decidi aguardar pela resposta do Ministério de Educação, resposta essa que, por coincidência, foi divulgada precisamente na mesma semana em que se celebra o 25 de Abril. Nem de propósito...

Para as mentes mais simplórias, aquelas que não conseguem ver mais além do que o seu clubismo lhes permite, este caso poderá resumir-se a uma simples questão futebolística. De facto, muitos portistas que agora se mostram indignados não veriam qualquer problema na alteração da canção caso esta terminasse em "Viva o Porto". Da mesma forma, muitos daqueles que defendem a educadora alegando que a actual configuração da canção não terá qualquer influencia sobre a preferência clubística das crianças, com certeza mudariam rapidamente de opinião caso a canção fosse alterada para "Morte ao Benfica". Nada a que não estejamos já habituados num país onde a paixão futebolística se sobrepõe, muitas vezes, ao bom senso. No entanto, para aqueles que ainda possuem algum sentido de responsabilidade cívica, este problema ultrapassa largamente o âmbito desportivo e levanta gravíssimas dúvidas sobre a qualidade da Democracia praticada nas escolas de Portugal. 

A Constituição Portuguesa defende a liberdade de pensamento e de opinião para qualquer cidadão nacional. Mais, defende o respeito pela diferença e individualidade de cada um. Como tal, as escolas, enquanto espaços de educação, devem salvaguardar o direito das crianças de se desenvolverem de forma livre, sem influências externas nem condicionalismos ideológicos de qualquer espécie, sejam eles políticos, religiosos, ou desportivos. Obviamente, não é isso que acontece quando as crianças são obrigadas a participar em brincadeiras e a cantar canções concebidas de forma a transmitir uma mensagem, implícita ou explícita, de propaganda partidária de uma qualquer facção.

Não deixa de ser curioso que, numa altura em que o nosso país atravessa uma grave crise económica e tanta gente se mostre revoltada por vivermos debaixo de uma ditadura imposta pelos mercados internacionais, se verifiquem tantas tentativas de branqueamento de uma situação que constitui um verdadeiro atentado à nossa Democracia e que, ao que parece, vai acontecendo com total impunidade. Hipocritamente, algumas pessoas chegam ao cúmulo de defender que a criança não é obrigada a cantar, já que a educadora permite que ela própria decida se quer participar ou não. Ora, todos nós, que já fomos crianças um dia, sabemos que não há nada pior do que sentir-se excluído pelos colegas, pelo que não é difícil perceber que qualquer miúdo se sentirá obrigado a participar na brincadeira pelo simples facto de querer sentir-se integrado no meio social. Nem o pai desta criança impedirá a filha de o fazer, consciente do constrangimento que essa proibição irá causar a uma menina de 4 anos que ainda é incapaz de perceber o que está verdadeiramente em causa. Tal situação representa assim um inadmissível acto de coação por parte da escola sobre os pais e, principalmente, sobre a criança, que se vêem obrigados a assumir um tipo de comportamento que vai contra a sua liberdade de opinião mas que lhes é imposto em nome da vontade da maioria. À luz da Constituição, tal constitui um crime punível por lei, o que torna incompreensível a decisão agora divulgada pelo Ministério de Educação de arquivar a queixa. E como se a situação não fosse, por si só, suficientemente grave, dá-se ainda o caso da escola, perante as várias reclamações dos pais da criança, ter chegado ao cúmulo de responder que "quem está mal que se mude"! Tal resposta reflecte a arrogância e a prepotência desta gente que, além de impor as suas vontades aos outros, ainda se acha no direito de dispor da vida das pessoas a seu bel-prazer, sem se preocupar com as dificuldades sentidas, hoje em dia, por qualquer casal na educação dos seus filhos. E o Ministério de Educação pactua com tudo isto???

Para agravar ainda mais a situação, a divulgação deste caso por parte do FC Porto despoletou a denúncia de muitas outras situações semelhantes ocorridas em escolas da região da Grande Lisboa, nas quais a versão adulterada da canção "Atirei o pau ao gato" é também assumida como prática comum. É caso para perguntar se todos os cidadãos portugueses que não pactuem com estas tácticas tipicamente fascistas de imposição das preferências clubísticas da capital serão obrigados a mudar-se para o Norte do país onde ainda não existem registos deste tipo de comportamentos, pois parecem não ter alternativa

É sabido que a criança escolhe o seu clube pela meritocracia, ou seja, ela adopta simplesmente o clube mais vencedor, aquele que se mostra capaz de lhe proporcionar mais alegrias. As "politiquices" que geralmente condicionam as opções dos adultos não têm qualquer peso na decisão da criança, excepto se esta for condicionada pelos seus familiares ou educadores. Como tal, só por mera ingenuidade se poderá considerar que a alteração da canção infantil de forma a terminar num absolutamente nada inocente "Viva o Benfica" terá tido outra motivação que não a de incutir nos alunos a simpatia pelo clube da capital. Tudo indica, portanto, que a generalização desta versão adulterada da canção nas escolas poderá constituir uma forma de evitar a "desertificação" do Benfica,  já que, em virtude do reduzido êxito desportivo verificado nas últimas décadas, o clube tem vindo a perder o principal factor que sustenta a sua imagem de grandeza: o número de adeptos.
Talvez esteja aqui a explicação de ainda encontrarmos na região Norte muitos adeptos do Benfica (mesmo em cidades onde os clubes locais têm vindo a conquistar maior espaço no coração da população), ao contrário do que se passa com o FC Porto que, não obstante o sucesso desportivo obtido nas últimas décadas, continua a ter muita dificuldade em obter adeptos na região de Lisboa onde não parece existir liberdade de escolha já que as pessoas, ou aceitam o clube que lhes é imposto, ou são "convidadas" a mudar-se.

Apesar do arquivamento do processo por parte do Ministério de Educação, este caso ainda dará muito que falar já que o pai da criança aqui em causa avançou também com um processo na Justiça. Espero, sinceramente, que, em nome da Democracia, os tribunais consigam repor a normalidade, punindo a escola e a educadora de infância pelo seu inqualificável comportamento. Caso contrário, estaremos perante um precedente grave, abrindo-se assim as portas à anarquia nas escolas onde qualquer professor ou educador se sentirá com a liberdade de impor determinadas preferências às crianças, ou de forma particular, ou de forma concertada, inserida numa estratégia de propaganda em larga escala, sabe-se lá em nome de que interesses.

1 comentário: