sábado, 26 de maio de 2012

Memórias de uma noite inesquecível I

Nos meus velhos tempos de Faculdade, conheci um jovem que tinha a face desfigurada por uma enorme cicatriz de forma circular em torno do seu olho esquerdo. Porque o assunto causaria natural constrangimento ao nosso colega, evitávamos falar disso, ainda que não fosse fácil disfarçar a má impressão que aquela disformidade causava a quem olhava para ele. Imaginei que a mesma teria sido causada por um terrível acidente ou um infeliz encontro com um cão feroz, mas, um certo dia, falando de futebol, o nosso colega explicou-nos a verdadeira origem dessa horrível marca.
Sendo natural de uma aldeia transmontana próxima de Torre de Moncorvo, este nosso colega era um dos poucos jovens que, na década de 80, ali se identificava com as cores do FC Porto. No dia 27 de Maio de 1987, então com apenas 15 anos, deslocou-se ao café da aldeia para assistir ao jogo da final da Taça dos Campeões Europeus na companhia de outros dois amigos também portistas, alimentando a esperança de ali assistir à primeira conquista internacional do seu clube frente ao poderosíssimo Bayern de Munique.
O café da aldeia era o habitual ponto de encontro de muitos aficionados da bola que ali se reuniam para assistir à transmissão televisiva dos principais jogos e, como era costume, estava cheio de gente, na sua maioria afecta ao Benfica. Os três assumidos portistas, de cachecol ao pescoço, ocuparam uma das mesas e ali, rodeados de adeptos rivais, foram assistindo ao desenrolar da partida, roendo as unhas dos dedos à medida que o gigante bávaro ia tomando conta das operações. Muito lhes custou ver o golo de Kogl que Mlynarczyk não conseguiu evitar e mais ainda por se verem confrontados com os festejos dos benfiquistas ali presentes que celebraram o golo alemão como se do Benfica se tratasse. No entanto, quis o destino que o FC Porto virasse o resultado a seu favor com dois golos históricos e foi então que um trágico incidente aconteceu. Ao primeiro golo portista, que o meu colega festejou com natural felicidade, logo surgiram os primeiros insultos e ameaças vindas daqueles benfiquistas que torciam pela equipa alemã. Na sua mentalidade doentia, distorcida por um fanatismo absurdo, os festejos azuis e brancos constituíam um atentado à hegemonia encarnada que habitualmente ali se fazia sentir, pelo que qualquer manifestação da parte dos adeptos portistas devia ser imediatamente oprimida, fosse de que forma fosse. É claro que ninguém acreditava que um motivo tão fútil pudesse causar reacções violentas, pelo que as pessoas prosseguiram com naturalidade, sem  atribuir grande importância às ameaças. Um erro crasso. Ao segundo golo do FC Porto, um desses indivíduos partiu uma garrafa de cerveja na mesa e, dirigindo-se ao meu colega enquanto este festejava com os olhos postos na televisão, cravou-lhe o caco de vidro na cara. Foi por escassos milímetros que não lhe traçou o olho. Aquele momento que devia ser de festa, de alegria e de orgulho, transformou-se num pesadelo que iria perseguir o meu colega por muitos anos, graças ao fanatismo de um execrável canalha, o ódio cego de um criminoso que, em nome de um benfiquismo doentio, destruiu a face de um miúdo que, com todo o direito, festejava a vitória do clube do seu coração. A noite acabou por ser passada nas urgências do hospital, já com a família, onde os gritos de dor substituíram os gritos de alegria enquanto os médicos procuravam retirar os pedaços de vidro cravados na carne dilacerada e suturavam a ferida com trinta pontos.
Foi aberto um auto pelas autoridades e, nos dias que se seguiram, os agentes da GNR visitaram o café e as casas de algumas das pessoas que testemunharam o sucedido, mas o processo acabou arquivado já que nenhuma das pessoas quis falar. Os adeptos do Benfica, todos gente de bem e bons chefes de família, tementes a Deus e cumpridores da lei, afirmaram que não viram nada. Os adeptos portistas calaram-se por medo das represálias.
25 anos após a conquista dessa Taça dos Campeões Europeus, aqui envio um grande abraço a esse colega com quem, infelizmente, perdi o contacto há muito tempo, mas de quem guardo as melhores recordações. Espero que tenha sido capaz de ultrapassar a dor no corpo e na alma que lhe causaram com aquela inqualificável agressão e que tenha conseguido a tão desejada operação plástica que lhe permitiria recuperar a sua imagem. Espero também que nunca tenha perdido a força e a coragem para torcer pelo FC Porto onde quer que fosse, fazendo dessa força uma luta contra o despotismo de quem faz do ódio o seu modo de estar na vida.

1 comentário:

  1. sei muito bem o que é assistir a um jogo do nosso FC Porto em ambiente adverso.
    felizmente, à data, não tive um episódio tão triste como o descrito no post.
    e também sei que, passados vinte e cinco anos, "eles" ainda continuam grunhos.

    abr@ço
    Miguel | Tomo II

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