domingo, 27 de maio de 2012

Memórias de uma noite inesquecível II

O DIA 27 DE MAIO DE 1987

Faz hoje precisamente 25 anos que vivi uma das noites mais loucas da minha vida. Um quarto de século passou (e como tempo voa, meu Deus...) sobre essa data, mas as emoções então sentidas, partilhadas com milhares de portistas nas ruas da cidade invicta, estão tão vivas na minha memória como se tivessem ocorrido poucas horas atrás.
O dia 27 de Maio de 1987 foi passado com um nervosismo latente que impedia a minha concentração no que quer que fosse. Para onde quer que eu olhasse, tudo se desvanecia rapidamente numa intensa névoa e aos olhos vinham-me apenas as imagens dos jogadores, dos golos e dos festejos que marcaram a caminhada vitoriosa do FC Porto até àquela final da Taça dos Campeões Europeus. A esperança na conquista daquele ambicionado troféu era imensa, a confiança arrebatadora, mas, sempre que atingia o seu auge, esbarrava com estrondo no medo que sentia do monstro bávaro como um navio choca contra um rochedo. O nome do gigante de Munique ensombrava a minha mente como se se tratasse de uma divisão panzer prestes a invadir Portugal. O Bayern era uma espécie de "Leibstandarte Adolf Hitler", mas em versão futebolística. Começava por pensar: "Que se lixe, mesmo que percamos a final, chegar aqui já é uma honra...". Mas logo a seguir pensava: "Não! Se os nossos bravos navegadores domaram o Adamastor, os nossos jogadores vão derrotar este colosso!". Este processo mental foi-se repetindo até à hora do jogo, altura em que me refugiei por alguns minutos na varanda de minha casa e, olhando o céu azul, rezei a Deus, pedindo-lhe ajuda.
Nunca tive jeito para inventar orações e agradeço que se tenha perdido a tradição de rezar antes das refeições pois, no meu papel de chefe de família, seria a chacota do mundo inteiro. Por isso, decidi dirigir-me ao Criador como se fosse um amigo de longa data, esperando que não me fulminasse com um raio pela impertinencia. Comecei por pedir-lhe desculpa por interromper os seus importantes assuntos divinos com algo tão fútil como o futebol e implorei-lhe que, naquilo que pudesse interferir sem prejudicar a sua isenção, ajudasse o FC Porto a ser campeão europeu. Nada mais. Nada de promessas, nada de idas a Fátima a pé, de joelhos ou de patins, porque temia que, se mais tarde não cumprisse a promessa, o Porto não voltasse a ganhar mais nada na vida.
Recordo-me ainda de ver a rua deserta. Não se via vivalma. Acredito que, àquela hora, toda a cidade estaria já defronte de um televisor, aguardando ansiosamente o início da partida. Fiz o mesmo.

(continua)

Sem comentários:

Enviar um comentário