domingo, 27 de maio de 2012

Memórias de uma noite inesquecível III

A FINAL

Todas as finais são finais, mas algumas são mais finais do que outras. Há finais que se limitam a ser uma simples decisão de atribuição de um troféu entre duas equipas, jogos extremamente táticos, cínicos, sem substância, que, não fossem os registos, facilmente se perderiam na névoa do tempo. E depois há aquelas que, pela qualidade do futebol praticado, pela incerteza do resultado, pela beleza dos golos marcados e pela emoção que movem entre a assistência, ficarão para sempre na memória, não apenas dos adeptos das equipas intervenientes, mas de todos os que a ela tiveram o prazer de assistir.
O jogo entre o FC Porto e o Bayern está, sem dúvida, entre as maiores finais de sempre na história da Taça dos Campeões Europeus. Os primeiros minutos foram marcados por uma intenso domínio do Bayern e foi com alguma naturalidade que os bávaros chegaram ao golo aos 24 minutos de jogo. Kogl rematou cruzado de cabeça e a bola só parou no fundo das redes de Mlynarczyk. Foi mal batido o guarda-redes polaco, que estava um pouco adiantado, mas o remate foi inesperado e a defesa também facilitou ao deixar espaço para o remate. Estaria a mentir se dissesse que este golo não afectou as minhas convicções. Mlynarczyk foi sempre um dos maiores esteios da equipa no brilhante percurso realizado até esta final e vê-lo tremer assim seria um abalo para a confiança de qualquer adepto. Mas, ao contrário do que cheguei a temer, o jogo prosseguiu e chegou ao intervalo sem que os alemães conseguissem repetir o feito. A esperança mantinha-se viva e, ainda que a consciência da tarefa árdua que nos esperava nos segundos 45 minutos nos enfraquecesse o espírito, não nos acalmava o coração.
A segunda parte começou com o resultado de 1-0 favorável ao Bayern. O FC Porto reagiu muito bem, entrou forte, destemido. Notava-se a mão de Artur Jorge, que ao intervalo terá dito aos seus pupilos que era agora ou nunca! Não havia retorno, não havia alternativa! O único caminho possível era o da baliza adversária e as  oportunidades de golo começaram finalmente a surgir com alguma frequência, mas a bola não entrava. Futre mostrava-se, como sempre, um dos mais revoltados e dos seus pés saiam verdadeiras obras de arte, mas os alemães, do alto da sua sobranceria e calculismo, iam dominando as operações, rechaçando, uma após outra, os ataques azuis e brancos.
E eis que, finalmente, se abriram as portas do céu! Aos 77 minutos, na sequência de mais uma jogada fulgurante pelo lado direito, a bola é centrada para a pequena área do Bayern onde surgiu Madjer isolado, apenas com um defesa em cima da linha de golo. "Chuta!", gritamos todos, mas Madjer não chutou. Não da maneira que todos esperávamos, porque os génios são assim, nunca fazem o que o comum dos mortais espera deles. Madjer percebeu, naquela fracção de segundo, que se parasse a bola, se se virasse para a baliza, iria perder tempo precioso. Em alternativa, esticou a perna para a frente e, num gesto portentoso, perfeito, único, tocou a bola com o calcanhar, lançando-a para o fundo da baliza bávara. Ainda hoje não necessito de quaisquer imagens televisivas para rever esse golo, de tal forma o tenho gravado na memória. Revejo-o mentalmente vezes sem conta, como se o mundo tivesse parado naquele preciso momento e nada mais existisse para além da imensa explosão de alegria que nos proporcionou.
O Porto igualou o marcador, mas não chegava. Para trazer o caneco, era preciso marcar mais golos, pelo menos mais um, um só! O golo galvanizou os jogadores portugueses e os alemães tremeram, mas nem assim alguém poderia imaginar o que se iria passar dois escassos minutos depois. Nunca a viajem do inferno ao céu demorou tão pouco tempo. Madjer tinha acabado de entrar após receber assistência junto à linha lateral, pois ficou combalido quando os seus companheiros se lançaram sobre ele durante os festejos do golo. O argelino recebeu a bola isolado junto à linha lateral pois até os adversários se tinham esquecido dele. Erro crasso! Quando arrancou para a área contrária, tirou um defesa da frente com mais um golpe de génio e centrou para a pequena área onde a bola foi encontrar Juary que, livre de marcação, só teve de a tocar para o fundo da baliza do desamparado Jean-Marie Pfaff. Naquele preciso  momento, o mundo à minha volta desabou, impotente para suportar o peso da felicidade e do orgulho imenso que me encheu o coração e a alma. Qual David, o meu clube, aquele pobre e pequeno clube de uma cidade secundária de um país secundário em quem ninguém apostava, aquele grupo de ilustres desconhecidos de camisola às riscas azuis e brancas, acabava de dar um golpe fatal na cabeça do Golias germânico.
Daí até ao final foi sofrer a bom sofrer. Os alemães, que até aí se comportavam como donos e senhores do seu destino, desesperavam agora, protestando por tudo e por nada, reclamando por qualquer demora na reposição da bola em jogo, pontapeando a bola para a frente à espera de um milagre. Nas bancadas, os adeptos germânicos agarravam-se à cabeça incrédulos, em contraste com os lusos que, arrumados num cantinho do Estádio do Prater, se faziam agora ouvir aos gritos de "Campeões!".
O apito final do árbitro soou nos meus ouvidos como as trombetas dos anjos. "ACABOU!", gritei eu, como querendo convencer-me a mim próprio desta feliz realidade. "SOMOS CAMPEÕES EUROPEUS"!

(continua)

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