quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A revolta da macacada

Tal como vem sendo habitual desde há vários anos, o Benfica voltou a gozar, neste início de época, de critérios de arbitragem especiais e exclusivos que permitiram ao clube lisboeta chegar à 4ª jornada com a inusitada marca de 143 minutos a jogar em vantagem numérica sobre os adversários, o que representa quase 40% do tempo total de jogo. É obra! No entanto, bastou que a equipa escorregasse, pela 2ª vez esta época, em Coimbra, onde protagonizou uma das piores exibições que lhe vi fazer nos últimos tempos, para que estalasse, lá para as bandas da capital do império ultramarino, mais uma das já habituais revoluções tendo a arbitragem como epicentro. Se a hipocrisia matasse...
Não pretendo sequer discutir a justeza dos cartões vermelhos mostrados pelos árbitros aos jogadores adversários do Benfica (ainda que o simples facto de Douglão ter sido despenalizado pela Liga ser suficiente para demonstrar que nem tudo tem decorrido de forma limpa), mas parece-me evidente que, se a arbitragem tivesse algum motivo para prejudicar o clube da Luz como os seus dirigentes tanto gostam de propagandear, nunca permitiriam que o mesmo beneficiasse de um tal registo, digno de menção no Guinness Book of Records. Bastaria que aplicassem aos jogadores adversários o mesmo critério largo (que é como quem diz, a mesma protecção) que é aplicada aos jogadores encarnados (como, por exemplo, Maxi Pereira, que não obstante ser useiro e vezeiro em matéria de indisciplina consegue passear airosamente em qualquer campo do país sem ser admoestado com um único cartão vermelho) ou, pelo menos, o mesmo critério que é aplicado nos restantes jogos, para que fosse evitada esta clara desproporcionalidade. Isto é tão óbvio, mas tão óbvio, que até uma criança de dez anos compreenderia, mas, infelizmente, continuam a existir milhões de portugueses que, quais chimpanzés inebriados pelos gritos do Tarzan da Selva, permitem que lhes substituam a razão humana pela irracionalidade primata.
Ora, no mesmo período em que o Benfica beneficiou de tais critérios disciplinares que, como facilmente se constata, não são transversais a todos os clubes, eis que o FC Porto teve motivos para reclamar, nada mais nada menos, de quatro penalties não assinalados a seu favor, dois dos quais ocorridos logo na primeira jornada, em Barcelos, quando Duarte Gomes, um dos meninos bonitos da Luz, decidiu fazer vista grossa a dois lances faltosos em plena área do Gil Vicente (um deles que mais parecia uma placagem de rugby, tal a eficácia com que o defesa gilista se agarrou à cintura de Kléber e não mais largou até imobilizar completamente o avançado portista). A cegueira do árbitro de Lisboa traduziu-se num empate e na cedência de dois pontos logo na primeira jornada, o que muito agradou aos clubes e à imprensa da capital que sobre o assunto não fizeram qualquer alarido. Como sempre acontece quando o FC Porto é prejudicado e, consequentemente, o Benfica disso retira proveito, não houve gritaria, não houve parangonas de 1ª página, não houve discursos revoltados, não houve declarações do presidente da Comissão de Arbitragem, não houve abertura de processos de investigação. E é assim, graças a esta despudorada viciação dos factos e esta descarada diferença de critério, que se vai manipulando as mentes simplórias deste país, incutindo-lhes a ideia de que o Benfica, coitadinho, é uma vítima inocente de uma atroz perseguição de forças ocultas. Sinceramente, já não há pachorra.

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