terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Adivinha-se uma época desastrosa

Ainda recentemente, aquando do aniversário de Jorge Nuno Pinto da Costa, escrevi aqui um texto em que salientei a inigualável obra do mítico presidente à frente do FC Porto e referi a imensa gratidão que todos os adeptos azuis-e-brancos lhe devem. Como tal, não assumo as críticas que algumas pessoas me dirigiram no seguimento do meu post anterior. Não sou mal agradecido e muito menos tenho a memória curta. Simplesmente, abomino aquela atitude passivo-depressiva, tão típica dos nossos rivais, de viver à sombra das glórias do passado enquanto encolhem os ombros perante a mediocridade que grassa nos seus clubes, ano após ano. Recuso-me a seguir esse rumo, até porque não foi esse o caminho que o próprio Pinto da Costa nos ensinou.

Sei de fonte segura que foi Pinto da Costa que sugeriu em primeira mão a contratação de Paulo Fonseca em detrimento de outros nomes que foram postos em cima da mesa e sei também que foi o presidente que defendeu a sua continuidade como treinador quando surgiu a primeira contestação entre os elementos da SAD perante as péssimas exibições e os maus resultados. Felizmente para nós, Pinto da Costa não costuma enganar-se, mas desta vez enganou-se. E tal como normalmente acontece quando se engana, defende teimosamente as suas convicções até às últimas consequências, muitas vezes em prejuízo do próprio clube. Obviamente, não estamos assim tão mal que se justifique entrar em histerias, nem devemos dar ouvidos aos patetas que já vão falando, pela enésima vez, em finais de ciclo. Afinal, há quatro anos também perdemos o campeonato e agora somos tri-campeões nacionais, o que diz tudo sobre  a nossa capacidade de dar a volta por cima das adversidades, mas também é importante que os dirigentes saibam ouvir as vozes contestatárias dos adeptos quando a insatisfação se faz notar de forma tão evidente.

Eu gosto de Paulo Fonseca. Recordo-me do brilho que ostentou no seu olhar quando apareceu pela primeira vez de dragão ao peito, deixando transparecer um orgulho de fazer inveja a qualquer indefectível adepto. Considero-o boa pessoa, simpático, afável, humilde, de trato fácil. Mas, infelizmente, estes predicados passam rapidamente para segundo plano quando se assume a função de técnico de uma equipa habituada a vencer e a convencer, não só a nível interno, mas também a nível internacional. Aquilo que se esperava de Paulo Fonseca era que prosseguisse a senda de sucesso do clube, mas não foi isso que se viu. Paulo Fonseca tem potencial para ser um bom treinador - já o provou ao serviço do Paços de Ferreira - mas não tem presentemente a experiência, a competência e a capacidade necessárias para dirigir um clube da dimensão do FC Porto. Ora, esta experiência fracassada, a juntar à de Vítor Pereira, já deveria ter servido de lição para a SAD portista. Compreende-se que, face aos lucros obtidos com alguns treinadores anteriores, vendidos ao Abramovic por uma pipa de petrodolares, se tenha visto aqui um negócio rentável. Em teoria, a táctica é perfeita: contratam-se técnicos jovens e ambiciosos, em princípio de carreira e, como tal, baratos do ponto de vista salarial, e faz-se deles treinadores vencedores projectando-os no mercado internacional graças à "montra" da Champions. Depois é só esperar que algum milionário morda o anzol. Já em termos práticos, isto traz riscos muito elevados, pois um clube que alcançou um nível nacional e internacional de excelência não pode dar-se ao luxo de pôr à frente da equipa um treinador sem experiência, capaz de delapidar por completo o trabalho de muitas décadas de sucesso.

É óbvio que a culpa não será só de Paulo Fonseca, nem os problemas são todos de agora. Aliás, é difícil garantir que a situação que agora se verifica seria diferente com outro treinador. No seguimento das políticas mantidas desde há várias décadas, a SAD tratou de vender vários jogadores importantes para os quais não conseguiu encontrar alternativas credíveis. Os reforços desta época ficaram muito aquém das expectativas e todos sabemos que, no FC Porto, a influência do treinador nessas escolhas é muito limitada. Talvez seja precisamente pela consciência da sua responsabilidade nesse processo que Pinto da Costa se mostra tão renitente em despedir Paulo Fonseca, mas convenhamos que, se tal tivesse acontecido no momento certo, se tivesse havido a coragem de assumir o erro e corrigi-lo, talvez o FC Porto ainda tivesse chances de, pelo menos, salvar a época com a conquista de um ou dois dos títulos que ainda tem ao seu alcance, designadamente a Taça Portugal e a Taça da Liga. Em vez disso, caminhamos a passos largos para assistir a uma das épocas mais desastrosas de que há registo nas últimas décadas.

1 comentário:

  1. Parabéns, Rodrigo.

    um dos posts mais lúcidos que li, nestes últimos tempos - efectiva e comprovadamente, muito conturbados para nós.

    mas seremos fortes o suficiente para levarmos de vencida estas adversidades.

    abr@ço
    Miguel | Tomo II

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