segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Lotaria de Natal

Ando há muitas semanas arredado da discussão futebolística e, sinceramente, não pretendia regressar hoje aos comentários independentemente do resultado do clássico, mas, decorridas poucas horas após o apito final no Dragão, já li tantas barbaridades proferidas contra Lopetegui que não pude deixar de vir escrever algumas linhas em sua defesa.
Comecemos por reconhecer o seguinte: já houve jogos em que o Benfica não merecia ter perdido no Dragão e perdeu. No jogo de há duas épocas, por exemplo, o empate teria sido perfeitamente ajustado ao que as equipas produziram durante o tempo regulamentar, mas quís o destino que Kelvin marcasse aquele golo épico aos 92 minutos e o resultado pendeu a nosso favor. Ontem, pelo contrário, o Benfica não merecia ter ganho e ganhou. O futebol é assim, imprevisível e nem sempre justo, e talvez por ser assim é que desperta tantas paixões.
O Benfica venceu mas não convenceu, pois nada fez para justificar a vitória e muito menos por uma margem de dois golos. Os encarnados jogaram no Dragão como as equipas pequenas costumam jogar: com 11 jogadores atrás da linha da bola, com pontapés para a frente a tentar apanhar o Porto em contra-pé em jogadas rápidas de contra-ataque e a destruir o mais que pôde com faltas recorrentes. Conseguiu o seu primeiro remate à baliza de Fabiano em cima dos 15 minutos, altura em que podia já ter sofrido por duas ou três vezes, e marcou o primeiro golo contra a corrente de jogo, num lance fortuito e que me parece ilegal, já que o Lima empurra a bola para a baliza com o braço. Perante isto, o treinador portista pouco mais podia fazer senão manter o seu esquema de jogo e acreditar. Em situações normais, seria apenas uma questão de tempo até o golo do empate surgir, já que os azuis e brancos praticavam um futebol muito mais vistoso, criativo e espectacular do que os adversários, mas a sorte assim não quis.
Já na 2ª parte, numa altura em que o Porto entrou disposto a tudo para chegar ao empate, o Benfica marcou num lance de contra-ataque em que o guarda-redes portista me parece mal batido. Lima, em noite sim, apareceu no sítio certo para facturar depois de Fabiano sacudir o primeiro remate exactamente para o único sítio que não podia fazer. Os lisboetas faziam o 2-0 sem saber ler nem escrever, mas, honra lhe seja feita, Lopetegui reagiu muito bem ao substituir Tello por Quaresma e ao fazer entrar Quintero para dar criatividade e frescura ao meio-campo. A partir daí, praticamente só deu Porto. Por duas vezes os portistas remataram à barra, em dois lances espectaculares em que a defesa encarnada andou completamente aos papéis e só por milagre a bola não entrou. Por mais duas vezes, os avançados portistas partiram completamente a defesa adversária, mas faltou pontaria e discernimento na hora do remate.
O jogo acabou com a derrota do Porto, como poderia perfeitamente ter acabado com a vitória portista. Assim não quis o destino desta vez. Ao Benfica saiu a Lotaria de Natal, a nós saíu-nos a fava do Bolo Rei. Paciência.
É verdade que este resultado nos deixa a seis pontos de distância do 1º lugar e é também verdade que ao Benfica já só lhe resta focar no campeonato nacional, pois foi eliminado precocemente das competições europeias, mas não podemos, de forma alguma, atirar a toalha ao chão. Por muito que nos custe perder com a equipa do regime, e ainda para mais no nosso reduto, desatar aos berros contra os jogadores ou o treinador é um acto de falta de inteligência. Além de ainda faltar muito campeonato para jogar, este Benfica é fraco e o Porto tem dado provas evidentes de qualidade. A excelente campanha europeia é um bom exemplo disso, pelo que é apenas uma questão de tempo até que o trabalho desenvolvido pela equipa e pelo técnico comece a traduzir-se em resultados práticos. Há que continuar a acreditar, porque até ao lavar das cestas é vindima.

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