segunda-feira, 30 de maio de 2016

Essas pessoas medonhas, feias e desdentadas lá do Norte

Convidado de Nuno Markl no Canal Q, José Cid referiu-se aos transmontanos de forma extremamente insultuosa. A dada altura do programa, falando acerca da música portuguesa, o cantor afirmou que "essas pessoas do Portugal profundo já deviam ter evoluído" e acrescentou: "Vêm excursões para o Pavilhão Atlântico dessas pessoas que nunca viram o mar, assim medonhas, feias e desdentadas. Efectivamente, isso não é Portugal".


Como se esperava, estas declarações motivaram uma legítima revolta e não se fizeram esperar as reacções enérgicas, não só dos transmontanos, mas também de todos aqueles que não se revêm nesta imagem degradante do povo nortenho. Mas aqui eu pergunto: o que motiva tal revolta, afinal? O que causa mais espanto? Ouvir a opinião de um artista cuja carreira foi sempre marcada por polémicas e excentricidades, ou perceber que esta é, afinal de contas, a simples manifestação de uma mentalidade que é comum à generalidade dos lisboetas? 
Tenho familiares em Lisboa e há décadas que conheço este tipo de discurso. Ainda recentemente, a filha de um primo meu, uma miúda com apenas 10 anos de idade, natural da capital, me dizia convictamente: "O Porto não presta! No Porto só há gente burra!". "Por que dizes isso? Conheces o Porto? Já lá foste?", perguntei-lhe eu. "Eu não, mas o meu pai disse-me!", respondeu-me ela.
De facto, tenho de concordar parcialmente com a minha priminha. Não há só burros no Porto e no Norte do país, mas há, infelizmente, muita gente que continua a fazer-se passar por burra, fingindo desconhecer esta triste realidade: para o comum dos alfacinhas, as pessoas do Norte, sejam elas do Minho, Trás-os-Montes ou Douro, não passam de gente atrasada, analfabeta e ignorante. Mais do que nunca, é preciso mudar esta mentalidade, mas ela não mudará enquanto perdurarem as constantes demonstrações de subserviência e inferioridade do povo português em relação à capital e essas continuam visíveis nas mais diversas vertentes.

2 comentários:

  1. Sou filho de pais transmontanos, a esmagadora parte da minha família vive numa aldeia do Alto Douro, nasci e vivi toda a minha vida em Lisboa, sou Portista desde sempre e até já fui sócio atleta do Benfica.
    Em boa verdade, posso afirmar que quem acha os nortenhos atrasados ou analfabetos são justamente os alfacinhas ignorantes. Não é de todo uma noção generalizada. O que, em pleno século XXI, ainda pode sustentar essa ideia pré concebida, é justamente a importância que o norte por vezes confere aos bitaites dos alfacinhas ignorantes.

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  2. Meu caro, agradeço o seu comentário e respeito inteiramente a sua opinião, mas acredito que a mesma seja apenas uma excepção à regra, uma visão particular altamente influenciada pelo facto de ter raízes familiares no Norte. Cada pessoa tem a sua experiência de vida e com certeza a sua será diferente da minha, mas a impressão que me ficou do convívio com a generalidade dos lisboetas é mesmo a de ser gente pedante e sobranceira, que acha que tudo para além das sete colinas não passa de uma mera paisagem bonita, recheada de gente mal formada e mal falante. Desafio-o a questionar, de forma discreta e circunstancial, os seus familiares e amigos lisboetas sobre a opinião que têm do Porto e do Norte e logo verá se eu tenho ou não razão. Cumprimentos.

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