terça-feira, 30 de agosto de 2016

APAF - A apologia da batota

«Todos nós temos os nossos dias maus e Tiago Martins teve o seu em Alvalade. Acontece a qualquer ser humano.»

«Tiago Martins é jovem e deixou-se influenciar demasiado pelo ambiente de Alvalade, mas temos de compreender que isso também faz parte do seu crescimento como árbitro.»

«Apesar do risco que esta escolha envolvia, há que apostar nos árbitros jovens e dar-lhes oportunidades. Tiago Martins irá com certeza aprender com os erros que cometeu em Alvalade e ganhar experiência para o futuro.»

Não, ninguém proferiu estas afirmações. Estes são apenas três exemplos do discurso politicamente correcto que o presidente da APAF poderia ter usado para se referir à arbitragem de Tiago Martins em Alvalade no passado domingo. Em vez disso, Luciano Gonçalves preferiu vir a público armar-se em chico-esperto, afirmando (pasme-se!) que assistimos a uma "grande arbitragem"!!!

Luciano Gonçalves podia ter ficado caladinho ou, na pior das hipóteses, ter dito apenas que foi uma arbitragem normal, mas isso era pouco para as suas pretensões. Tinha de ser algo mais cáustico, mais incisivo, mais provocador para o FC Porto, ou seja, tinha mesmo de dizer que foi uma "grande arbitragem"!!!

Só o simples facto de usar o termo "grande arbitragem" traz água no bico, porque ninguém usa tal expressão - a não ser que assistamos a uma arbitragem completamente isenta de erros, o que muito raramente acontece. Por exemplo, ninguém ousa dizer que a final do Campeonato da Europa, que a Selecção Nacional ganhou frente à França para gáudio lusitano, teve uma "grande arbitragem", já que, logo aos 7 minutos de jogo, Cristiano Ronaldo sofreu uma entrada dura não sancionada pelo árbitro que atirou o nosso capitão para fora da partida. Ora, se bastou esse erro grosseiro para que a performance de Mark Clattenburg tenha perdido o estatuto de "grande arbitragem", só por manifesta desonestidade ou má-fé se pode considerar que o deplorável festival de incompetência e parcialidade a que se assistiu em Alvalade merece tão alta classificação.  
Muito mais próxima da "grande arbitragem" ficou a do polaco Szymon Marciniak em Roma, que, sem olhar a caras nem a camisolas, teve coragem e carácter para punir dois jogadores da equipa da casa com cartões vermelhos plenamente justificados. Como diz o povo, teve-os no sítio - e não me refiro neste caso aos cartões, mas a algo que Tiago Martins, pura e simplesmente, não tem.

O presidente da APAF deve achar que todos nós, adeptos, não passamos de um grupo de saloios, parvos e ignorantes, que nada percebem de futebol. Deve pensar que, com o seu discurso falacioso, irá calar a nossa revolta, convencendo-nos de que, afinal, aquilo que pensávamos ser um roubo descarado foi afinal uma "grande arbitragem". As cotoveladas e entradas de sola que passaram impunes, os cortes com a mão não sancionados e os golos irregulares mal validados que deram a vitória ao Sporting de bandeja, foram apenas uma mera ilusão de óptica, um delírio colectivo que assolou o país de lés a lés. Ainda bem que temos os iluminados dirigentes da APAF para nos trazer luz sobre o assunto...

É por estas e por outras que Portugal não tem, presentemente, qualquer representação entre os árbitros da elite mundial e, pelo que se viu em Alvalade, assim continuará nos próximos anos. Não tivemos (nem teremos) nenhum árbitro português nas fases finais das últimas edições da Liga dos Campeões, nem da Liga Europa, nem do Campeonato da Europa, nem do Campeonato do Mundo, e nem sequer dos Jogos Olímpicos. Para pertencer ao mais alto escalão da FIFA não basta pregar um autocolante no peito de um árbitro inexperiente, incompetente e inapto, e esperar que alguém na UEFA ou na FIFA seja suficientemente cego ou burro para se deixar enganar. Tentar branquear actuações criminosas como a que se viu em Alvalade disfarçando-as de "grandes arbitragens" pode ir ao encontro de certos interesses da Capital do Império e até cair no goto de uma certa elite lisboeta, ávida de conquista de um título de campeão que lhe foge há muitos anos, mas decididamente não convence minimamente ninguém que tenha dois olhos e dois dedos de testa, e muito menos serve os interesses do futebol português. Talvez fosse boa ideia alguém explicar isso ao presidente da APAF.

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