sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Vira o disco e toca a mesma

Em Leicester, frente ao até aqui inimaginável campeão inglês, o Porto teve duas partes bem distintas: na primeira, não jogou absolutamente nada; na segunda, jogou absolutamente mal. O futebol praticado parece uma daquelas versões renovadas de velhas canções pimba que já eram más no original e piores ficaram depois de arranjadas. E se dos artistas pouco se poderia esperar - já que são praticamente os mesmos das épocas anteriores - já do maestro esperava-se muito, mas muito mais. Infelizmente, Espírito Santo e Lopetegui parecem ter sido colegas de escola e partilhado a mesma carteira. O mesmo jogo pastoso, sem imaginação, sem acutilância, sem objectividade, sem mecanismos, disfarçado por um falso domínio territorial alicerçado na táctica do passe para o lado e para trás.  
Afirmar que o Porto falhou apenas na finalização - como fez o treinador portista após o jogo - quando facilmente se percebe que a equipa foi incapaz de criar situações de perigo junto da baliza adversária, é cair no ridículo. Na verdade, exceptuando o remate ao poste de Corona, só com muita boa vontade se consegue encontrar lances em número suficiente para sustentar a tese da falta de sorte ou de pontaria. Rematar de longe e para a bancada pode até servir para embelezar a estatística do jogo, mas - peço antecipadamente desculpa pela expressão que vou usar, mas não encontro outra melhor - não vale a ponta de um corno!

O pior de tudo é que os portistas começam a dar mostras daquele síndrome dos marinheiros que, quando chegam ao porto após meses de abstinência sexual por falta de mulheres a bordo dos navios, qualquer avantesma lhes parece uma sereia. A crise de futebol é de tal ordem que ver a equipa correr e rematar, mesmo que atabalhoadamente e sem qualquer efeito prático em termos de resultados, já se afigura como um sinal, ainda que pálido, de que alguma coisa se conseguirá retirar desta equipa. Reconheço que, até há pouco tempo, eu também quis fazer parte desse grupo de marujos excitados a calcorrear as docas em busca de animação, mas começo a perder a paciência e o poder de encaixe para tanta fealdade.

Hoje, ainda no rescaldo da derrota em Inglaterra e na véspera da deslocação à Madeira para defrontar o Nacional, vem Marcano afirmar que é preciso dar "um murro na mesa". Ora, um dos grandes inconvenientes de se dar muitos murros nas mesas é, inevitavelmente, alguma coisa acabar por partir: ou a mesa, ou a mão. A repetição sistemática de chavões do tipo "Somos Porto", "Estamos aqui para ganhar", "Vamos dar um murro na mesa", "Temos fome de vitórias", blá, blá blá, assume-se como um mero discurso demagógico quando, na prática, não se encontram acções e reacções que lhe confiram sustentação. E de demagogia, meus caros, já estamos todos fartinhos até à ponta dos cabelos...

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