segunda-feira, 12 de junho de 2017

Memórias de Guerra


Recordam-se do filme Chicago, um musical premiado com seis Óscares da Academia de Hollywood, em que Richard Gere interpreta o papel de um advogado de sucesso, contratado para defender duas mulheres (Catherine Zeta-Jones e Renée Zellweger) condenadas à pena de morte por homicídio? Numa cena final, Richard Gere confunde o juiz e os jurados com uma série de alegações em que diz e desdiz, afirma e nega, avança e recua, com as imagens do tribunal a alternarem-se com um número de sapateado em palco, como se a actuação do advogado não passasse também de uma encenação, um espectáculo. Ora, aquilo a que se assistiu ontem no programa Prolongamento da TVI24 foi também um número de sapateado, com o artista Pedro Guerra a deambular em sucessivos rodopios, ora reconhecendo a possibilidade de ter escrito os emails comprometedores denunciados por Francisco J. Marques, ora afirmando que é tudo um embuste "de um canalha". 

Confrontado com a pergunta "Foi você que escreveu aqueles emails", o que toda a gente (e em especial os benfiquistas) esperava ouvir da boca do Pedro Guerra seria "Não, não fui eu, porque sou uma pessoa íntegra, honesta, de bom carácter, e jamais escreveria tal coisa"! Em vez disso, ouviu-se aquela pérola do "Admito que possa ter escrito, mas não me lembro", que é a mais antiga estratégia de advocacia usada na defesa de todos aqueles que têm culpas claras no cartório. Basta lembrar que o jogador do Canelas, Marco Gonçalves, em declarações à televisão logo após o jogo em que agrediu o árbitro, também alegou que não se lembrava do momento da agressão. Não há dúvida de que a mente humana é um universo complexo, repleto de insondáveis mistérios, e estas perdas de memória selectivas e convenientes são algo que a ciência ainda tem dificuldade em explicar. Felizmente, há muito que os tribunais deixaram de ser palco para este estilo trauliteiro de advocacia e estão a marimbar-se para as flutuações memoriais dos réus. Que o diga Marco Gonçalves, que levou quatro anos de suspensão. Haja a vontade política de investigar a fundo o conteúdo destes emails e a deplorável postura de Pedro Guerra será apenas um lamentável pormenor deste caso.

Pedro Guerra pode vir alegar agora que não se lembra do que foi escrito nos emails que trocou com Adão Mendes em 2013, mas a verdade é que, na altura, teve conhecimento de que algo muito grave se passava na arbitragem e não teve a decência de denunciar o caso às autoridades. Como tal, mesmo admitindo que nada tinha a ver com o processo, Pedro Guerra tornou-se cúmplice moral do mesmo com o seu silêncio. Isso e a tentativa evidente de branquear a gravidade do caso e de fugir ao seu esclarecimento, diz bem do carácter do director da BenficaTV. Apesar disso, não podemos aceitar que a comunicação social centre a discussão deste caso em Pedro Guerra, tanto mais que o discurso de Adão Mendes nos emails deixa bem claro que o grande responsável pelo tal sistema de corrupção é o "Primeiro Ministro", o qual só pode ser Filipe Vieira.

Não conheço pessoalmente Francisco J. Marques e confesso que, antes dele ser Director do FC Porto, nem sabia da sua existência, mas, por aquilo que já vi, parece-me ser uma pessoa inteligente e esperta, que sabe movimentar-se bem nesta pocilga que é o mundo do futebol. Não me parece que seja pessoa de se expor a um processo-crime por difamação e calúnia apenas por interesses clubísticos. O passado recente demonstra que tudo aquilo que Francisco Marques apresenta publicamente tem fundamento factual. As cartilhas são disso exemplo evidente. Esperemos portanto para ver o que acontecerá amanhã, no programa Universo Porto - da bancada, prometida que está a apresentação de mais dados polémicos sobre este caso.

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