quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Dura lex sed lex


O artigo 94 do Regulamento Disciplinar das competições, que determina a sanção de derrota quando um jogo oficial não se efectuar ou não se concluir em virtude do estádio não se encontrar em condições regulamentares por facto imputável ao clube que o indica, parece estar a causar muito mal-estar lá para as bandas da Capital do Império.

Parece que os cartilheiros e jornaleiros do regime passaram, repentinamente, a defender um conceito muito próprio de "verdade desportiva", segundo o qual os resultados dos jogos se sobrepõem ao cumprimento dos regulamentos das competições e à própria legislação portuguesa. Curiosamente, numa clara inversão dessa mesma linha de raciocínio, esquecem-se, muito convenientemente, de todas as situações em que os clubes lisboetas beneficiaram, ou pretenderam beneficiar, precisamente de decisões de secretaria, menosprezando os resultados desportivos obtidos dentro das quatro linhas. Por exemplo, em 2016, o Benfica B safou-se da descida de divisão, simplesmente porque o Farense foi punido com sanção de derrota por ter usado indevidamente um jogador no jogo com o... Benfica; em 2014, o Sporting pretendeu que o FC Porto fosse excluído da Taça da Liga, devido a um atraso na entrada dos jogadores ao intervalo; em 2008, o Benfica tentou retirar o FC Porto da Liga dos Campeões, na sequência do processo Apito Dourado. Chegam estes exemplos para demonstrar a hipocrisia dessa gente, ou será preciso acrescentar mais alguma coisa?

Obviamente, todos nós, portistas, queremos que a nossa equipa vença os seus jogos desportivamente, dentro dos campos, e não por via de decisões administrativas. Essa é a essência do desporto e do futebol em particular.  No entanto, não podemos admitir que essa premissa sirva de pretexto para que alguém infrinja a lei de forma leviana e irresponsável, pondo em risco a vida de milhares de pessoas, e consiga sair impune como se nada de grave se tivesse passado. Independentemente do resultado final da partida (ao que tudo indica, a segunda parte do jogo Estoril-Porto irá mesmo realizar-se no dia 21 de Fevereiro), há um processo de investigação a decorrer que, doa a quem doer, terá de ter as devidas consequências disciplinares e legais. E se, à luz dos regulamentos, essas consequências ditarem a derrota administrativa do Estoril, pois que assim seja. Não se trata aqui de uma questão de vontade do FC Porto. Trata-se do cumprimento da lei e do respeito pela vida humana, por muito que isso incomode os jornalistas da BOLA, da CMTV, da TVI e outros paladinos da "verdade desportiva" à moda da Capital do Império.

Se os clubes não estão de acordo com os regulamentos, mudem-nos. Para isso é que servem as Assembleias Gerais da Liga. Não venham é pretender que os regulamentos sejam usados como arma de arremesso, ora sendo respeitados, ora sendo ignorados, conforme os interesses mesquinhos de cada um.  

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